Durante muito tempo, dizer “detesto tecnologia” soou, em certos ambientes da advocacia, como uma frase quase inofensiva.
Às vezes, parecia até um traço de identidade. Um modo de afirmar que o valor daquele profissional estava em outro lugar: no raciocínio, na experiência, na leitura fina do caso, na sofisticação jurídica, na sensibilidade para a negociação, na profundidade intelectual.
E, em muitos casos, estava mesmo.
O problema é que o mercado mudou de pergunta. E quando a pergunta muda, certas respostas começam a custar caro demais.
A tecnologia não está substituindo a advocacia. Está reprecificando o valor do advogado, alterando a forma como clientes, empresas e escritórios percebem qualidade, eficiência e custo.
O Direito continua exigindo inteligência, repertório e julgamento. Nada disso perdeu importância. O que perdeu valor foi parte da maneira antiga de produzir esse trabalho. Essa distinção é central.
Por que fluxos lentos pareciam sofisticação?
Durante anos, a advocacia conseguiu esconder ineficiências dentro da complexidade natural da própria profissão. Fluxos lentos eram lidos como zelo. Excesso de etapas parecia rigor. Trabalho manual demais passava por dedicação. Operação pesada era entendida como operação séria.
Essa proteção começou a ruir.
Quando uma equipe jurídica usa tecnologia com inteligência, a diferença entre valor real e atrito acumulado deixa de ficar escondida. Torna-se mais fácil perceber o que exige repertório sênior e o que era apenas rotina mal estruturada. O que demanda sofisticação genuína e o que apenas aumentava o custo da entrega.
É aí que a conversa deixa de ser técnica e passa a ser econômica.
Por que a formação jurídica também cria rigidez?
Boa parte dos advogados que resistem à tecnologia não resiste por incapacidade. Resiste por formação.
A advocacia treina profissionais para desconfiar do improviso, reduzir risco, respeitar o que foi assentado, valorizar consistência e evitar atalhos. Tudo isso continua valioso. Mas existe uma linha delicada entre rigor e rigidez.
O problema é que a mesma formação que produz grandes juristas também pode tornar a adaptação mais custosa. Não por falta de inteligência, mas porque mudar de ferramenta, de fluxo e de lógica de trabalho exige mais do que aprender algo novo. Exige rever uma arquitetura profissional que funcionou por muito tempo.
É por isso que tantos advogados brilhantes resistem. Não estão defendendo apenas um método. Estão protegendo, sem perceber, o sistema que os tornou competentes.
Daí o “detesto tecnologia” que ainda circula com naturalidade em escritórios, eventos do setor e conversas entre colegas. É a reação previsível de quem foi treinado para prosperar em um sistema anterior, sem ainda perceber que o sistema passou a recompensar outra combinação de atributos.
O que o mercado já decidiu?
Quando um advogado diz “detesto tecnologia”, talvez imagine que está descrevendo apenas um gosto pessoal.
O mercado escuta outra coisa.
Escuta uma operação mais lenta do que poderia ser, mais dependente de esforço manual e menos inteligente na distribuição do tempo sênior. Em muitos casos, escuta também uma velha confusão entre complexidade jurídica e complexidade do processo.
É aí que a frase fica cara.
O cliente continua disposto a pagar por qualidade, inteligência e estratégia. O que perdeu espaço foi a tolerância ao desperdício que antes passava despercebido, tratado como parte inevitável do ofício. O mercado continua remunerando excelência jurídica. Ficou menos disposto a pagar pela ineficiência embalada como rigor.
O que muda na prática?
O papel da tecnologia não é disputar espaço com o advogado. Quando bem usada, ela retira o profissional do esforço operacional que o desgasta sem engrandecê-lo. Devolve tempo e nitidez para o que realmente importa: compreender melhor o problema, pensar com mais precisão, sustentar com mais força a confiança que o trabalho jurídico exige.
O novo valor do advogado está cada vez mais concentrado em poucos ativos: julgamento, síntese, leitura contextual, comunicação estratégica e capacidade de usar ferramentas sem perder refinamento jurídico.
A falsa oposição entre excelência técnica e tecnologia envelheceu. O profissional forte não é o que terceiriza o pensamento para a máquina, nem o que rejeita qualquer ferramenta em nome de uma suposta sofisticação. É o que combina densidade analítica com uma estrutura de trabalho contemporânea.
Em outras palavras, o profissional forte continua sendo profundamente advogado, mas já não depende de um modelo antigo para provar que tem valor.
Por onde começar?
Adaptar-se não exige idolatria tecnológica. Exige maturidade e método.
O primeiro movimento é identificar onde o trabalho ainda é mais artesanal do que sofisticado. Nem toda tarefa manual agrega valor, nem todo processo demorado é rigoroso, nem todo costume merece continuar existindo.
O segundo é substituir um processo manual por um processo rastreável, dentro da rotina que já existe. Envio de documentos, controle de prazo, emissão de proposta. Não como digitalização cosmética. Como governança básica. O mercado percebe.
O terceiro é usar inteligência artificial como assistente de pensamento. Não para escrever petições. Para organizar argumentos, antecipar contra-argumentos, estruturar pareceres, revisar lógica. O advogado que usa IA para pensar melhor não está terceirizando o julgamento. Está ampliando a capacidade de processamento antes de exercê-lo. Que é, afinal, o único ativo que nenhuma plataforma ainda entrega.
O mercado não está pedindo que o advogado deixe de ser advogado.
Está pedindo que ele pare de confundir tradição com imobilidade, rigor com peso, e resistência automática com sofisticação.
“Detesto tecnologia” pode parecer uma frase pequena.
Hoje, em muitos contextos, não é. Ela não descreve apenas uma antipatia. Descreve um custo.
E o mercado já começou a cobrar essa diferença.