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Bônus deste artigoUm roteiro para montar o seu arquivo de contexto. Com ele, a IA passa a saber quem você é, como você escreve e o que você não aceita.
Montar meu arquivo

Quase toda semana alguém me faz a mesma pergunta numa mentoria. Qual inteligência artificial vale a pena assinar?

A pergunta vem com pressa, como se a escolha certa da ferramenta fosse resolver todo o resto. Eu entendo a pressa. O mercado inteiro fala de IA, e ninguém quer ser o último a entender o que está acontecendo.

Só que, quando olho com calma para quem tira resultado de verdade, o padrão é outro. Essas pessoas usam o mesmo ChatGPT, o mesmo Claude e o mesmo Gemini que todo mundo. O que elas têm a mais é um repertório de habilidades que assinatura nenhuma entrega pronto.

Eu contei sete. Algumas valem desde o primeiro dia de uso, outras só fazem sentido quando a rotina pede. Não existe ordem obrigatória.

Mas cada uma delas muda alguma coisa no resultado.

1. Você delega melhor a um associado do que à IA

A primeira habilidade parece básica, e é justamente por isso que quase ninguém a leva a sério.

Muitos advogados ainda fazem pedidos vagos à IA. Digitam meia frase, recebem uma resposta genérica e concluem que a ferramenta é rasa. Agora pense em como você pede uma peça a um associado em quem confia. Você explica o caso, diz onde quer chegar, avisa o prazo e, se for esperto, mostra um trabalho anterior que saiu do jeito certo.

Com a IA vale o mesmo cuidado. Diga o que você quer, dê o contexto, defina os limites de tamanho e de tom e mostre um exemplo do que é bom. Um exemplo concreto ajuda a IA a entender o padrão que você espera.

2. A IA concorda demais com você

A segunda habilidade é menos óbvia. As ferramentas de IA tendem a concordar com quem pergunta. Pergunte se a sua tese é boa e é provável que ela diga que sim, com uma elegância que dá até vontade de acreditar.

Você já conhece esse colega. É aquele que lê a sua petição com pressa e devolve com um “está ótimo”. Você sai confiante, e o ponto fraco continua lá, esperando a outra parte encontrar.

Por isso eu peço à IA o papel oposto. Que ela faça o trabalho do advogado da parte contrária, aponte os três pontos mais fracos da minha tese, do mais grave para o menos grave, e só recue se eu trouxer argumento novo.

E confira tudo o que ela trouxer. No Tribunal de Justiça de Santa Catarina, um agravo citou jurisprudência e doutrina que não existiam. A parte que recorreu foi multada em 10% do valor atualizado da causa por litigância de má-fé, e a atuação do advogado, que atribuiu o erro ao uso do ChatGPT, foi comunicada à OAB de Santa Catarina.

A IA escreve com a mesma segurança quando acerta e quando inventa. Quem assina a peça é você.

3. O que a IA não sabe sobre você

A terceira habilidade é a que separa quem experimenta IA de quem trabalha com ela.

Boa parte das respostas genéricas nasce de falta de contexto. A ferramenta pode ajudar em muita coisa, mas o que ela precisa saber está na sua cabeça, nos seus e-mails, nos trabalhos que você já fez. Ela não sabe quem são os seus clientes, como você escreve, o que você jamais mandaria para alguém. Então responde para um advogado médio que não existe.

Vejo isso com frequência nas mentorias. A pessoa se explica de novo a cada conversa, se cansa, e conclui que a IA não serve para o trabalho dela.

A saída é escrever esse contexto uma vez só. Um documento simples sobre quem você é, sua área, seus clientes, seu jeito de escrever e o que, para você, define um bom trabalho. Um caminho prático é pedir que a própria IA entreviste você, uma pergunta por vez, insistindo quando a resposta vier vaga, e organize tudo no final.

Um detalhe faz enorme diferença. Diga com clareza o que você rejeita. “Nunca mando ao cliente um e-mail com juridiquês” ensina mais do que “gosto de comunicação clara”.

Quando a IA finalmente sabe quem você é, ela para de responder para todo mundo.

E começa a responder para você.

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Monte o seu arquivo de contexto

Preparei um roteiro com as perguntas sobre a sua atuação, o seu jeito de escrever e os seus critérios de qualidade. No final, o arquivo sai pronto para colar no ChatGPT, no Claude ou no Gemini, junto com a instrução da parte contrária e uma política de IA de uma página.
Montar meu arquivo As suas respostas não saem do seu navegador.

4. Parar de copiar e colar

A quarta habilidade é conectar a IA ao que você já usa. Muito advogado ainda vive entre janelas. Copia o e-mail do cliente, cola no chat, copia a resposta, cola no Word.

As principais ferramentas hoje se conectam ao e-mail, à agenda e às pastas, em geral sem exigir conhecimento técnico. A partir daí dá para pedir coisas como “reúna o que ficou pendente com este cliente nas últimas semanas”. Esse pedido só funciona quando a IA enxerga o que você enxerga.

E é exatamente por isso que ele exige cuidado. Conectar a IA ao e-mail do escritório é dar acesso a dados de clientes, então essa habilidade só vale para quem já resolveu as regras de sigilo que aparecem mais adiante. Nem todo advogado precisa dela. Quem vive afogado em mensagens, provavelmente sim.

5. Automatizar o que se repete

A quinta habilidade é automatizar sem programar. Escolha uma tarefa que volta toda semana e que não depende do seu julgamento a cada vez, como organizar andamentos ou padronizar um relatório.

Explique a tarefa em detalhes. Muita gente descobre que, falando em vez de digitando, explica com mais calma e mais detalhe. Quando o resultado sair do jeito certo, salve o procedimento e, se a ferramenta permitir, programe a tarefa para rodar sozinha.

Repita isso algumas vezes e você terá montado um pequeno sistema. Sempre com alguém conferindo o que sai dele.

6. Saber o que é um bom trabalho antes de pedir

A sexta habilidade é a mais difícil para quem foi treinado a controlar cada vírgula. É delegar o resultado em vez do passo a passo.

Você define a entrega, estabelece os critérios e pede que a IA faça uma primeira conferência contra eles. Depois, revisa o resultado antes de usar. É a diferença entre o sócio que reescreve cada parágrafo do associado e o sócio que avisa, logo de saída, que o parecer precisa responder a três perguntas, citar só julgados conferidos e caber em duas páginas.

E aqui a IA revela um problema que não é dela.

Tem muito advogado excelente que não consegue dizer o que considera um bom trabalho. Ele reconhece quando vê. Ou melhor, reconhece quando não vê, e aí reescreve tudo, de madrugada, convencido de que ninguém faz do jeito certo. Nas mentorias, essa é uma das queixas mais comuns de quem lidera. “A equipe não entrega o que eu espero.” Muitas vezes, o padrão que esse líder espera nunca foi dito em voz alta.

Com a IA acontece a mesma coisa, só que mais rápido. Quem nunca aprendeu a definir padrão para pessoas vai ter a mesma dificuldade com a máquina. E vai culpar a ferramenta, do mesmo jeito que culpava o estagiário.

Antes do próximo pedido, para a IA ou para alguém da sua equipe, vale uma pergunta desconfortável. Você consegue descrever o bom trabalho, ou só consegue reconhecê-lo quando reescreve tudo?

7. Usar a IA para aprender

A sétima habilidade pode começar no primeiro dia. É usar a IA para organizar o que você precisa aprender e testar o que entendeu.

Diante de um tema fora da sua área, de uma cláusula que você nunca viu ou de uma mudança de regra, peça que ela explique o assunto a partir de fontes que você escolheu, separe o essencial e depois faça perguntas para testar o quanto você entendeu. Ela não substitui o estudo, mas encurta o caminho até a pergunta certa.

O que não muda com nenhuma ferramenta

Quanto mais a IA participa do trabalho, maior o cuidado com o sigilo, a conferência e a responsabilidade, três coisas que continuam sendo suas.

Antes de colar qualquer coisa, pergunte se aquilo está coberto pelo sigilo profissional. Se estiver, anonimize ou deixe de fora. E leia as condições de uso de cada ferramenta para saber como ela trata, guarda e usa os seus dados. O tipo de conta, sozinho, não garante nada. Essa diligência está nas recomendações que o Conselho Federal da OAB aprovou em novembro de 2024 para o uso de IA generativa na advocacia.

Nada sai para o cliente ou para o tribunal sem que alguém tenha lido inteiro e conferido na fonte cada julgado, artigo e número. Seja transparente com o cliente sobre como você usa IA. E se você lidera uma equipe, escreva isso numa página, com as ferramentas liberadas, os dados que nunca entram e quem revisa o quê.

A assinatura continua sendo sua.

Para quem quer se aprofundar
A Resolução 615/2025 do CNJ, em vigor desde julho de 2025, regula o uso de IA pelos tribunais e prevê que usuários externos, como advogados e partes, sejam informados de forma clara sobre o uso desses sistemas. A menção ao uso de IA no texto de cada decisão, porém, fica a critério de quem assina. O Marco Legal da IA, PL 2338/2023, passou pelo Senado em dezembro de 2024 e aguarda parecer na comissão especial da Câmara.

Por onde começar

Volto à pergunta que abre tantas mentorias. A ferramenta que você escolher hoje vai mudar daqui a seis meses, e a seguinte também. As habilidades ficam.

Se os seus pedidos ainda são vagos, comece por eles. Se já pede bem, escreva o seu contexto nesta semana. E se lidera alguém, comece pela sexta habilidade, porque ela vai melhorar o que você recebe da máquina e das pessoas.

E se quiser saber quanto da sua semana já está exposto a essa mudança, a calculadora de exposição à IA mostra o seu perfil e três movimentos para os próximos 90 dias.

A IA vai fazer cada vez mais do trabalho.

O critério do que é bom continua sendo seu.

Conhece um advogado que precisa ler isso? Compartilhe.
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