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A eleição terminou no domingo com pouco mais de três pontos de diferença entre os dois candidatos. Na prática, o país se dividiu quase ao meio. E a segunda-feira chegou com grupo de família em silêncio, amizade desfeita por print e uma linha do tempo parecida com arquibancada em dia de clássico.

Quero falar de um efeito dessa disputa que pouca gente percebe, porque ele atinge justamente quem deveria estar mais preparado para ela.

Bônus deste artigo: um diagnóstico com 12 situações de trabalho para descobrir como você discorda quando o assunto esquenta, com o exercício do outro lado.

Fazer o diagnóstico

Desde o primeiro ano da faculdade, o advogado aprende a pensar com a cabeça do outro lado. Estuda a tese que vai combater, antecipa o argumento da parte contrária, escreve a contestação já imaginando a réplica. Em audiência, precisa entender por que o juiz pode decidir contra o seu cliente antes de tentar convencê-lo do contrário. Numa negociação, quem sabe o que a outra parte precisa justificar para o próprio chefe chega muito mais perto do acordo.

A advocacia existe porque as pessoas discordam. E boa parte do que se paga a um advogado remunera a capacidade de compreender um raciocínio que ele não compartilha.

Mesmo assim, em ano de eleição, muita gente competente deixa essa habilidade na porta das redes sociais. O profissional que jamais subestimaria a parte contrária no escritório passa a descrever metade do país como gente burra, mal-intencionada ou manipulada. E faz isso em público, com nome completo e número da OAB no perfil.

O que um estudo sobre negociação diz sobre esta semana

A resposta mais comum a esse cenário é pedir mais empatia: sinta o que o outro sente, coloque-se no lugar dele. Um estudo publicado na revista Psychological Science aponta outro caminho, e o resultado interessa diretamente a quem negocia.

Os pesquisadores colocaram pessoas para negociar em situações em que o acordo só aparecia com alguma criatividade. Numa delas, alguém vendia um posto de gasolina por um preço acima do limite do comprador. Um grupo recebeu a orientação de imaginar o que o outro lado estava pensando. Outro grupo foi orientado a imaginar o que o outro lado estava sentindo. Quem tentou entender o raciocínio da outra parte fechou mais acordos e criou mais valor. Quem se concentrou nos sentimentos do oponente deixou a outra parte mais satisfeita, mas fechou menos negócios e, numa das rodadas, saiu com o pior resultado individual.

Para a conversa desta semana, isso muda bastante coisa. Ninguém precisa sentir o que o eleitor do outro lado sente, concordar com ele ou fingir que o resultado não importa. A habilidade que vale ouro é conseguir explicar, com honestidade, por que uma pessoa inteligente votou diferente de você: que medo ela carregava, que experiência de vida pesou, que notícia chegou até ela e não chegou até você.

Quem faz esse exercício pensa melhor. Quem abandona o exercício vai perdendo, aos poucos, a ferramenta mais importante do próprio ofício. Eu duvido muito que alguém passe quatro meses de campanha treinando desprezo pelo raciocínio alheio e chegue intacto à próxima mesa de negociação.

O imposto da torcida

Agora vamos para a parte que mexe com a carreira de forma mais concreta.

Uma pesquisa da consultoria Heach Recursos Humanos, com 2.080 profissionais de todo o Brasil, mostrou que 54,4% evitam expor opiniões políticas por medo de prejuízo no trabalho. Entre os jovens de 18 a 24 anos, o número sobe para 61,2%. E 44,8% disseram que divergências partidárias já atrapalharam a relação entre colegas.

Leia esses números do ponto de vista de quem publica. Mais da metade das pessoas que acompanham o seu perfil não vai comentar o que você posta sobre política, nem para concordar nem para discordar. O cliente que votou diferente de você não escreve nada. O diretor jurídico que pensava em te contratar não discute com você. O colega que poderia te indicar para uma vaga apenas guarda a impressão.

Eu chamo isso de imposto da torcida. É o custo que o profissional paga quando passa a se comportar como torcedor em público, e ele tem duas características cruéis. Ninguém te manda a conta, porque quem se afasta não avisa. E a cobrança chega com atraso, porque o print do comentário agressivo de outubro continua disponível em 2028, quando alguém pesquisar o seu nome antes de uma reunião.

Repare que a opinião política, em si, quase nunca causa o estrago. Muita gente respeita um advogado que vota diferente dela. O que pesa é o tom: o deboche, o rótulo, a generalização sobre quem pensa diferente. É aí que o cliente se faz a pergunta que decide a contratação. Se ele fala assim de metade do país, como vai falar de mim no dia em que a gente discordar?

Diagnóstico gratuito

Como você discorda quando o assunto esquenta?

Doze situações do dia a dia de trabalho, quatro perfis e o que cada um custa na sua carreira. No final, o exercício do outro lado, para treinar a habilidade que o estudo deste artigo mediu.

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O que o cliente procura num advogado

E isso chega numa camada mais profunda, ligada a quem você quer ser como profissional.

O advogado costuma ser chamado para os piores momentos da vida de alguém: uma demissão, um divórcio, uma briga entre sócios, um processo que tira o sono. Nessas horas, o cliente procura alguém capaz de olhar para o conflito com mais lucidez do que ele próprio consegue. Quem se mostra em público dominado pelo conflito comunica exatamente o contrário.

Imagina dois advogados com a mesma formação e a mesma experiência. Os dois têm opinião política forte e votaram em lados opostos. O primeiro passou a campanha explicando o próprio voto, discordando com firmeza e sem ridicularizar ninguém. O segundo passou a campanha colecionando memes contra os eleitores do outro lado. Na semana seguinte, um empresário que votou diferente dos dois precisa de alguém para conduzir uma negociação delicada com o sócio. Ele vai ligar para qual dos dois?

Os dois tinham opinião. Só o primeiro mostrou em público uma competência que esse empresário estava procurando: discordar sem perder o juízo.

Um critério para antes de publicar

Nada disso significa que advogado deve ficar calado sobre política. Você é cidadão, tem convicções, e muita gente constrói autoridade justamente defendendo ideias com coragem. O critério que eu proponho é mais simples e, ao mesmo tempo, mais exigente.

Antes de publicar ou comentar algo sobre política, faça a pergunta que você faria antes de protocolar uma petição: eu escreveria isso sabendo que a outra parte vai ler? Ela vai ler. Pode ser um cliente, um sócio, um juiz ou alguém da banca do processo seletivo que você vai disputar no ano que vem.

E, nesta semana, experimente um exercício que serve tanto para a política quanto para a próxima negociação. Escolha alguém que você respeita e que votou diferente de você. Escreva, só para você, os melhores motivos que essa pessoa teria para o voto dela, do jeito que ela mesma escreveria. Se você travar, preste atenção, porque é o mesmo músculo que você usa para prever o argumento da parte contrária, e ele andou parado.

O seu voto é secreto. O seu jeito de discordar vira currículo.


No episódio desta semana do podcast Mentoria Jurídica Estratégica, Além de trabalhar você precisa virar influenciador?, eu falo sobre a cobrança para aparecer nas redes e sobre como escolher onde a sua reputação precisa circular.

Toda terça, mando por e-mail o que não publico aqui: um dilema real da advocacia e a jogada que eu faria. Assine A Próxima Jogada.

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