Henrique tem 38 anos, um escritório pequeno no interior de São Paulo e uma placa na porta que diz “advocacia em geral”. Atende trabalhista porque o cliente aparece, faz inventário porque a família indica e aceita um contrato empresarial de vez em quando porque paga melhor. À noite estuda para um concurso que nem tem edital ainda, “só para garantir”. No ano passado fez uma pós em proteção de dados porque o tema estava em alta. No Instagram, publica sobre tudo isso quando sobra tempo.
Agora pense na Camila. Ela é coordenadora jurídica de uma indústria em Joinville, tem carteira assinada, plano de saúde e uma chefe que gosta do trabalho dela. Duas noites por semana dá aula numa faculdade particular, aos sábados atende alguns clientes por fora “para não perder a mão”, e de vez em quando abre o edital de um concurso de procuradoria só para ver se vale a pena. Guarda também, há uns cinco anos, a ideia de um dia abrir o próprio escritório.
Se você perguntar a qualquer um dos dois por que ainda não escolheu um caminho, a resposta vai soar sensata. O mercado está instável, a inteligência artificial está mudando tudo, emprego não dura para sempre e é bom ter para onde ir. Eu escuto essas respostas há mais de dezesseis anos nas sessões de mentoria, e com o tempo aprendi a reconhecer o que elas costumam esconder. Muitas vezes é um adiamento com cara de estratégia.
No episódio desta semana do Mentoria Jurídica Estratégica, Por que você adia o que importa na sua vida?, eu conversei com você sobre as tarefas que a gente empurra para depois, principalmente as que exigem raciocínio ou podem trazer uma resposta difícil. Este texto trata de um adiamento maior e mais elegante, que ninguém chama de procrastinação. Manter todas as portas abertas é a forma mais respeitável de não decidir.
A porta aberta cobra aluguel
A gente aprende cedo que ter opções é sempre bom, que vale fazer uma graduação ampla, acumular cursos e guardar um plano B na gaveta. Toda essa pedagogia parte de uma premissa que quase ninguém examina, a de que manter uma possibilidade viva sai de graça.
Não sai.
Cada porta aberta cobra um aluguel todo mês, e ele é pago na moeda mais escassa da advocacia, que é a atenção. O concurso sem edital consome as suas noites. A pós em proteção de dados pede que você acompanhe as resoluções da ANPD. As aulas da semana precisam ser preparadas em algum momento, e o cliente atendido por fora liga justamente na hora da reunião com a diretoria. Somadas, essas parcelas pequenas viram uma conta que ninguém vê chegar, porque ela vem diluída em cansaço.
Um estudo publicado na revista Management Science, em 2004, mostrou esse mecanismo de um jeito quase cômico. Os participantes jogavam no computador um jogo com três portas, e cada clique dentro de uma sala rendia dinheiro. Os pesquisadores então fizeram as portas deixadas de lado encolherem até desaparecer. A partir daí, as pessoas passaram a correr de uma porta para outra só para mantê-las vivas, mesmo quando isso reduzia o que ganhavam. Pagavam, com dinheiro de verdade, para não perder uma possibilidade que nem estavam usando.
Na advocacia, a sala que rende quase sempre já está identificada. O que impede o advogado de ficar nela é o barulho das portas que encolhem.
Quem precisa lembrar de você
O custo mais caro da porta aberta aparece do lado de fora, na cabeça de quem poderia escolher você.
Pense no colega que recebe numa sexta à tarde a ligação de um empresário com um problema societário. Ele tem uns dez segundos para lembrar de um nome, e o nome que aparece é o de quem ele associa àquele problema com nitidez. “Advocacia em geral” não ocupa espaço na memória de ninguém. É competência sem endereço.
Dentro de uma empresa a lógica é a mesma, só muda quem precisa lembrar de você. Quando abre a vaga de gerente jurídico, a diretoria pensa em quem ela associa ao futuro daquele departamento. Se a Camila é vista como alguém que vive com um pé na faculdade e outro no concurso, ela pode ser a mais competente da sala e mesmo assim parecer alguém de passagem. O associado de um escritório grande passa pelo mesmo quando os sócios discutem quem entra na próxima rodada de sociedade. Quem parece de passagem costuma ficar fora da conversa sobre o futuro.
Em “Marca Pessoal na Advocacia” eu defendo que reputação funciona como um atalho mental, e que o mercado precisa conseguir dizer numa frase o que você resolve. Quem mantém cinco portas abertas oferece cinco frases pela metade. E o mercado, que tem pressa, escolhe quem entrega a frase inteira.
Isso não faz do generalista um profissional menos competente. Muitas vezes ele é o mais bem preparado da turma. Ele só é mais difícil de lembrar, e na advocacia ser lembrado no momento certo pesa mais do que saber muito em silêncio.
O que acontece quando a porta se fecha
A defesa das opções tem uma segunda premissa escondida, a de que você seria mais feliz se pudesse voltar atrás. A psicologia sugere o contrário.
Num estudo publicado no Journal of Personality and Social Psychology, em 2002, estudantes de fotografia revelavam duas fotos e escolhiam uma para levar para casa. Parte deles podia trocar a foto nos dias seguintes, e a outra parte decidia de forma definitiva. Quem podia trocar ficou menos satisfeito com a escolha. E quase todos, antes de começar, diziam preferir ter a chance de trocar.
A mente só começa a fazer as pazes com uma escolha quando ela fica. Enquanto a porta continua aberta, você segue comparando, revisando e imaginando a outra vida. Você paga duas vezes, com a energia que a outra porta consome e com a satisfação que a escolha atual nunca chega a produzir.
Conheço advogados que passaram anos divididos entre a carreira acadêmica, o concurso e o escritório. Trabalham muito em todas as frentes e não se sentem em casa em nenhuma delas. O cansaço que me descrevem é o de quem nunca desfaz a mala.
Uma pesquisa da Universidade de Chicago ajuda a aliviar o medo de escolher. Os pesquisadores acompanharam milhares de pessoas em dúvida sobre uma grande mudança, como trocar de emprego, que aceitaram deixar uma moeda decidir por elas. Seis meses depois, quem tinha feito a mudança dizia estar mais feliz. A dúvida prolongada tem um custo que quase nunca entra na conta.
Ferramenta gratuita · Inventário
Veja quanto custa cada porta com o Inventário das Portas Abertas
Antes de fechar qualquer porta, vale saber quanto cada uma está custando. Preparei o Inventário das Portas Abertas, uma ferramenta para você listar as frentes que disputam a sua atenção, comparar o tempo que cada uma consome com o que ela devolveu e descobrir quais continuam abertas por resultado e quais só por medo. Deixe seu e-mail e abra a ferramenta.
Você também passa a receber A Próxima Jogada, minha carta semanal sobre carreira na advocacia. Sai da lista em um clique.
Fechar portas sem queimar pontes
Aqui eu me afasto de muito conselho que circula por aí. Você vai encontrar textos dizendo que o segredo é queimar o plano B, largar tudo e apostar sem rede. Isso funciona bem na biografia de quem deu certo e muito mal na vida de quem tem aluguel, filhos e um escritório com dois funcionários, ou um salário que sustenta a casa. Ninguém precisa se jogar no vazio para parar de adiar.
O que eu proponho dá menos manchete e mais trabalho. Comece olhando com calma para tudo o que hoje disputa a sua atenção, das áreas em que você atua aos cursos, concursos e projetos que você vai mantendo vivos. Pense em quanto tempo cada um deles leva do seu mês e no que devolveu para você no último ano, em cliente, em dinheiro, em reputação ou em promoção. Quase sempre essa conta revela uma coisa incômoda. Algumas portas continuam abertas porque trazem resultado, e outras continuam abertas só porque fechá-las dá medo.
Uma pergunta ajuda muito a separar uma da outra. Se essa porta sumisse amanhã, você sentiria falta do que ela entrega ou só do que ela promete?
Depois de escolher a sala que rende, dê a ela um prazo de verdade. Pelo que eu acompanho nas mentorias, o mercado leva entre um ano e um ano e meio de dedicação séria para começar a ligar o seu nome a um posicionamento. Durante esse tempo a decisão está tomada. A revisão acontece na data que você marcou, e as semanas difíceis no meio do caminho ficam sem direito a voto.
Isso vale também para quem tem emprego e um projeto ao lado. Uma porta lateral com prazo e objetivo pode ser a decisão mais lúcida de uma carreira, porque é assim que muita gente sai do jurídico interno para o próprio escritório sem colocar a família em risco. O que cobra aluguel é a porta lateral que existe há cinco anos sem data para virar nada.
E fechar uma porta pode ser bem mais gentil do que parece. Pode ser indicar um colega de confiança para a área que você deixou, ou admitir para você mesmo que o concurso nunca foi o seu projeto. A rede de segurança continua existindo. Você só deixa de morar nela.
O Henrique não precisa arrancar a placa amanhã, e a Camila não precisa pedir demissão para abrir o escritório. Os dois precisam descobrir qual daquelas salas paga as contas e qual delas só acalma o medo, e dar à primeira o tempo que nunca deram a nenhuma.
Quem mantém todas as portas abertas acaba morando no corredor.
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