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O escritório comprou a ferramenta. Fez o anúncio interno. Separou uma manhã para o treinamento. Chamou alguém para explicar prompts, riscos, produtividade, ganhos de escala. Em algum momento, apareceu uma apresentação com palavras como futuro, transformação, eficiência e inovação.

Até aí, aliás, tudo previsível. O problema começa depois.

Na segunda-feira seguinte, o cliente continua recebendo uma resposta confusa. O parecer chega mais rápido, mas sem uma leitura mais sofisticada do risco. O contrato vem revisado, mas ninguém explica o que realmente importa. A reunião foi gravada, transcrita, resumida e arquivada; a decisão segue dependente da intuição de uma ou duas pessoas sobrecarregadas.

A ferramenta mudou. O trabalho, muito pouco.

No fundo, essa talvez seja uma das descobertas mais complicadas que estamos vendo. A inteligência artificial não está apenas prometendo produtividade, mas está revelando, com uma frieza quase constrangedora, a qualidade real da gestão dentro das organizações.

O Future of Professionals 2026, relatório da Thomson Reuters publicado esta semana, coloca um número concreto nessa tensão: cerca de US$ 143 bilhões em receita estão sob reconsideração ativa no mercado americano de serviços jurídicos e contábeis, pela distância entre o que os clientes esperam da IA e o que os fornecedores estão conseguindo entregar.

É importante notar que o número vem do mercado americano. A dinâmica que ele descreve, não.

O Brasil tem 1,4 milhão de advogados, a maior proporção por habitante do planeta, um para cada 153 brasileiros, num PIB que representa uma fração do americano. Mais profissionais disputando proporcionalmente menos mercado. O cliente corporativo brasileiro, especialmente aquele conectado a operações globais ou alinhado a padrões internacionais de gestão, já mede seus fornecedores jurídicos com os mesmos critérios que os dados da Thomson Reuters capturam nos Estados Unidos.

Portanto, a pressão não chegará de fora. Já está aqui, e quem ainda não percebeu talvez seja o próximo a perder um cliente sem entender exatamente por quê.

A pesquisa ouviu 1.816 profissionais de 62 países. Entre eles, 74% dizem usar IA semanalmente, e 91% acreditam que suas organizações usam a tecnologia abaixo do potencial. Ou seja, a adoção já aconteceu. O problema é o que veio depois dela.

A maioria dos escritórios entrou na era da IA pela porta da compra, não pela porta da mudança. Assinou a licença, criou um grupo interno, fez o post. E não redesenhou processo, não discutiu padrão de qualidade, não definiu governança, não explicou ao cliente onde a tecnologia melhora a entrega e onde ela aumenta o risco.

Ainda assim, o cliente percebe. Não pelo nome da ferramenta, afinal talvez, ele nem queira saber qual modelo está sendo usado. Mas percebe quando a resposta vem mais clara, quando o prazo encurta sem virar descuido, quando o jurídico antecipa um problema em vez de apenas reagir.

A Thomson Reuters aponta que 78% dos clientes corporativos consideram melhorias de qualidade por IA muito importantes ou essenciais ao avaliar seus fornecedores. Apenas 6% acreditam que a maioria dos prestadores entrega isso hoje.

Em outras palavras, esse abismo entre expectativa e entrega é onde os contratos se movem.

O conhecimento que o upload não cobre

De fato, durante décadas, escritórios trataram conhecimento como ativo quase pessoal. Um sócio sabia onde estava a tese boa. Uma coordenadora lembrava do parecer antigo. Um advogado sênior tinha na cabeça o histórico completo do cliente. Funcionava até certo ponto, mas dependia demais de memória, permanência e acesso informal. Quando alguém saía, parte da inteligência ia embora junto.

Por isso, a IA tornou esse problema visível. Ferramentas de processamento de linguagem natural pesquisam bases internas com precisão impossível para qualquer sistema de palavra-chave, entendendo intenção, relação e proximidade semântica.

Recuperam o documento salvo como “demissão sem justa causa” quando a busca foi feita com “rescisão imotivada.” Isso tem valor real, mas só funciona bem quando existe acervo confiável, curadoria, segurança e revisão humana séria. Sem isso, a ferramenta organiza melhor a bagunça. E vamos combinar que bagunça organizada continua sendo bagunça.

Na prática, a parte mais difícil da transformação não está no software. O sócio que sempre guardou o melhor modelo no próprio computador precisa aceitar que conhecimento relevante não pode depender de apego individual. O gestor centralizador vai descobrir que IA em ambiente centralizador vira gargalo com interface bonita. Para a liderança que trata tecnologia como atalho para não enfrentar conversas sérias sobre método e qualidade, a conta vai chegar de outro lugar: pela saída um a um dos clientes.

O que a assinatura compromete

Nesse sentido, a OAB aprovou em novembro de 2024 recomendações para o uso de IA generativa na prática jurídica, organizadas em torno de confidencialidade, diligência, responsabilidade profissional e supervisão humana. O recado central é que a ferramenta auxilia, mas a assinatura continua sendo de uma pessoa.

Três riscos concretos decorrem disso:

A competência que está faltando nomear

Além disso, existe ainda uma outra consequência da automação que não aparece em nenhum relatório, porque ainda não tem como ser medida.

O advogado júnior que entra no escritório hoje e delega à IA a leitura das cem páginas do processo para obter o resumo saltou algo que os profissionais sêniores reconhecem quando o veem ausente: o atrito cognitivo, o desconforto de ler o que é confuso e ainda insistir em uma interpretação própria.

Ou seja, esse processo é a matéria-prima do julgamento profissional. Sem ele, o profissional fica habilidoso em aprovar o que a máquina produziu, e progressivamente incapaz de detectar os erros que ela embala lindamente.

Afinal, o Direito funciona pela especificidade. Um caso raramente é apenas um conjunto de informações; há contexto, tensão, estratégia, assimetria de poder e consequências que não cabem em uma resposta estatisticamente provável. A IA trabalha bem com padrões. A boa advocacia começa com frequência quando alguém enxerga a exceção que o padrão invisibiliza.

Tem ainda uma camada estrutural nesse risco que o mercado ainda não calculou. Os grandes modelos de linguagem foram treinados com o passado: jurisprudência acumulada, teses que já ganharam, documentos que já circularam. Se toda a produção intelectual do setor começar do mesmo ponto de partida, quem vai criar as teses que ainda não existem?

Aliás, as grandes viradas do direito nasceram de alguém que viu o que os instrumentos disponíveis não conseguiam enxergar. Terceirizar o início do raciocínio para um sistema treinado no ontem tem um custo que demorará anos para aparecer. Mas vai aparecer.

O que sobra

Em síntese, a tecnologia torna mais difícil sustentar certas convenções que o mercado carregou por tempo demais. Cobrar hora improdutiva como sofisticação é uma delas. A IA entrou nos escritórios pela porta da eficiência, mas a pergunta que ela deixou na sala é bem maior.

O detalhe que distingue quem usa IA de quem a deixa trabalhar no lugar dele é anterior ao clique. É o que o profissional traz consigo antes de abrir o resultado: uma hipótese própria sobre o caso e uma posição sobre os riscos que só muda com um argumento melhor. Sem esse filtro, a distinção entre revisar o resultado e simplesmente aprová-lo desaparece. E com ela, a única garantia real que o cliente tem.

Portanto, quando a máquina faz mais rápido o que você sempre fez, o que sobra de verdadeiramente valioso no seu trabalho?

No fim, quem souber responder cresce. Quem não souber talvez descubra que o futuro não eliminou sua relevância. Só revelou que ela era menor do que parecia.

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