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Não no sentido literal, como se uma tecnologia pudesse simplesmente ocupar a cadeira do advogado e tornar a profissão desnecessária. A inteligência artificial provavelmente não eliminará a advocacia até 2030. Ela fará algo mais complexo e, para muita gente, mais desconfortável: retirará valor de uma parte do trabalho jurídico que depende de repetição, previsibilidade e volume, ao mesmo tempo que aumentará o valor do julgamento, da confiança e da responsabilidade humana. A profissão continuará existindo, mas será exercida de outra maneira.

Essa mudança não chegará em uma data marcada. Ela será percebida em pequenos deslocamentos: um contrato revisado em minutos, uma pesquisa pronta antes da primeira reunião, uma empresa que resolve sozinha uma dúvida simples, uma equipe menor que entrega o que antes consumia muitas horas.

Quando esses movimentos se acumularem, ficará claro que o mercado não deixou de precisar do Direito. Deixou apenas de pagar o mesmo preço por tarefas que a tecnologia tornou abundantes.

A substituição acontecerá dentro da profissão

Durante muito tempo, a advocacia se sentiu protegida por uma espécie de exclusividade estrutural. Existem atividades privativas, prerrogativas profissionais e limites legais que continuam sendo importantes. Mas essa proteção não alcança toda a cadeia de valor do trabalho jurídico. Ela não impede que clientes busquem informação antes da consulta, que empresas automatizem processos internos ou que plataformas transformem parte do serviço em uma experiência mais simples. A tecnologia não precisa ocupar formalmente o lugar de um advogado para modificar a profissão. Basta que altere o tempo necessário para realizar uma tarefa, a quantidade de pessoas envolvidas e a expectativa do cliente sobre preço, velocidade e clareza.

A lei protege o território. Mas quem protege a demanda?

Essa pergunta é mais útil do que tentar adivinhar se uma máquina algum dia poderá advogar. Uma profissão não é uma atividade única. Ela reúne trabalho repetitivo, raciocínio, relacionamento, negociação e responsabilidade. Quando algumas dessas camadas passam a exigir menos esforço humano, o efeito aparece nos cargos, no tamanho das equipes, na formação dos jovens e na maneira de cobrar pelo serviço.

A Organização Internacional do Trabalho estima que uma em cada quatro pessoas no mundo trabalha em ocupações com algum grau de exposição à IA generativa. O dado chama atenção, mas sua interpretação é menos apocalíptica do que parece. Como a maioria das ocupações ainda exige participação humana, a transformação das tarefas é mais provável do que o desaparecimento integral dos empregos.

Na advocacia, essa transformação já começou.

A velocidade deixou de caber em uma única curva

Existe uma razão para tantas pessoas sentirem que a inteligência artificial já não avança apenas de forma exponencial. O que vemos não é uma curva isolada, mas diversas curvas que se alimentam. A capacidade computacional aumenta, os modelos melhoram, o custo de uso cai, o investimento cresce, mais pessoas adotam as ferramentas e a própria IA começa a ajudar na pesquisa que produzirá a geração seguinte. Quando esses movimentos acontecem juntos, o resultado parece maior do que a soma das partes.

Os dados mais recentes confirmam uma aceleração extraordinária. O AI Index 2026 da Universidade Stanford registrou crescimento médio de 3,3 vezes ao ano na capacidade computacional global dedicada à IA desde 2022. Em um único ano, modelos de fronteira ganharam 30 pontos percentuais no Humanity’s Last Exam, teste criado para favorecer especialistas humanos. No OSWorld, que mede a capacidade de agentes realizarem tarefas em computadores, o desempenho saltou de aproximadamente 12% para 66,3%. Avaliações que deveriam permanecer difíceis por anos estão sendo superadas em meses.

Ainda assim, chamar todo esse fenômeno de ultraexponencial como se fosse uma medida estabelecida seria impreciso. Algumas curvas são claramente exponenciais. Outras avançam por saltos, encontram limites e depois voltam a acelerar. Há também uma fronteira irregular: sistemas capazes de resolver problemas científicos sofisticados continuam falhando em tarefas simples ou em situações que exigem contexto, memória e adaptação confiável.

A hipótese de crescimento realmente superexponencial existe, mas permanece condicionada. Um estudo do NBER publicado em 2026 mostra que a automação da própria pesquisa em inteligência artificial pode criar ciclos explosivos de inovação quando o ganho tecnológico e o financiamento de novas pesquisas superam os retornos decrescentes. É um modelo econômico importante, não a comprovação de que essa dinâmica já domina toda a economia.

Na prática, há uma diferença entre a velocidade da tecnologia e a velocidade das organizações. Outro levantamento do NBER com quase seis mil executivos encontrou uso de IA em 69% das empresas pesquisadas, mas uma intensidade média de apenas uma hora e meia por semana entre executivos. A adoção é ampla; a transformação profunda ainda é desigual.

Por isso, a melhor descrição talvez seja aceleração composta. Ela preserva a força do fenômeno sem transformar uma hipótese em certeza.

Quando a execução se torna abundante

Boa parte do trabalho jurídico nasce da leitura, da organização e da produção de texto. É justamente nesse território que a inteligência artificial avança com maior velocidade. Pesquisa de legislação e jurisprudência, análise de grandes volumes de documentos, elaboração de resumos e construção de cronologias podem ser realizadas em uma fração do tempo que consumiam há poucos anos. A primeira versão de um contrato, de uma notificação, de um memorando ou de uma petição também já não precisa começar em uma página em branco.

Isso não significa que o resultado seja confiável apenas porque chegou rápido. Uma ferramenta pode escrever com segurança e, ainda assim, omitir um fato, confundir uma referência ou inventar uma fonte. A fluência produz uma aparência de competência que aumenta a responsabilidade de quem revisa. O trabalho humano muda de lugar: sai da busca inicial e se concentra na validação, no contexto e na escolha do que realmente importa.

Na revisão contratual e na due diligence, essa diferença fica evidente. Identificar cláusulas, comparar documentos e sinalizar desvios é diferente de compreender o peso de cada risco para uma operação. Uma cláusula pode ser juridicamente aceitável e comercialmente desastrosa. Outra pode parecer perigosa no papel, mas ser negociável diante dos interesses envolvidos. A tecnologia reconhece padrões com velocidade. O advogado precisa decidir o que fazer com eles.

Até a relação inicial com o cliente tende a mudar. Dúvidas recorrentes, coleta de informações e orientações simples migram para interfaces de autosserviço. O cliente não abandonará necessariamente o advogado, mas chegará à conversa mais informado e menos disposto a pagar pela reprodução daquilo que já encontrou sozinho. Da mesma forma, atualizar o andamento de processos e consolidar números de uma carteira será insuficiente. Quando a informação se torna barata, o cliente passa a esperar interpretação, impacto financeiro, alternativas e direção.

É assim que a substituição acontece sem eliminar formalmente a profissão. A tarefa continua existindo, mas exige menos tempo. O serviço continua sendo entregue, mas por outra estrutura. A necessidade jurídica permanece, enquanto muda a natureza daquilo pelo qual alguém está disposto a pagar.

O que continuará raro

Quanto mais fácil for produzir uma resposta, mais importante será saber se ela merece confiança.

Casos reais raramente chegam com fatos perfeitos, objetivos alinhados e riscos mensuráveis. Eles chegam atravessados por interesses, silêncios, contradições e consequências que nenhuma base de dados conhece por completo. Nesse espaço, o julgamento humano se torna decisivo. Não basta gerar possibilidades. Alguém precisa compreender o contexto, escolher um caminho e responder por essa escolha.

Antes de responder, o bom advogado também precisa formular o problema. Uma ferramenta pode oferecer uma solução impecável para uma pergunta mal construída. Muitas vezes, a contribuição mais valiosa do profissional está em perceber que o cliente apresentou o sintoma, não a causa. Está em conectar o jurídico ao negócio, identificar o conflito que ainda não foi nomeado e antecipar consequências que não aparecem na primeira camada da análise.

Negociação, persuasão e leitura das relações pertencem a esse mesmo campo. Negociar envolve poder, timing, reputação, linguagem e concessões. A IA pode ajudar a preparar argumentos e cenários, mas não carrega a história daquela relação nem assume as consequências de um acordo mal conduzido. Clientes também não procuram somente informação. Procuram segurança para decidir quando patrimônio, reputação, carreira, liberdade ou futuro estão em jogo.

O AI Jobs Barometer 2026 da PwC, construído a partir de mais de um bilhão de anúncios de emprego, encontrou um mercado dividido. Funções nas quais a IA amplia o trabalho de especialistas cresceram mais do que aquelas em que a tecnologia torna a atividade acessível a não especialistas. O levantamento também mostrou que vagas iniciais mais expostas à IA passaram a exigir com muito mais frequência competências tradicionalmente associadas a profissionais experientes, como julgamento e liderança.

Esse resultado ajuda a enxergar um paradoxo. A IA pode reduzir o tempo necessário para produzir trabalho jurídico e, ao mesmo tempo, elevar o nível humano esperado de quem permanece. O problema é que as tarefas mais facilmente automatizadas sempre funcionaram como uma escola invisível para os jovens. Se pesquisa, resumo e primeiras minutas forem delegados à máquina, escritórios precisarão ensinar raciocínio de maneira intencional, com discussão de casos, revisão comentada e participação gradual em decisões reais.

Saber supervisionar a tecnologia também fará parte da competência jurídica. O uso sem governança pode acelerar o erro, o viés e a exposição de dados. A Resolução nº 615/2025 do CNJ, atualizada pela Resolução nº 674/2026, exige transparência, segurança, supervisão humana e responsabilização no Judiciário. A norma é dirigida ao Poder Judiciário, mas revela uma direção institucional: não basta adotar ferramentas; é necessário estabelecer limites e responder pelos resultados.

O advogado mais preparado não será aquele que tenta vencer a máquina em velocidade. Será aquele que consegue utilizá-la sem entregar a ela o próprio julgamento.

O que 2030 começa a revelar

O cenário mais plausível não é o desaparecimento dos advogados, mas a consolidação de uma advocacia híbrida. A inteligência artificial estará presente na pesquisa, na redação, na revisão, na gestão e no atendimento, enquanto pessoas continuarão responsáveis por contextualizar, decidir e assumir as consequências. O Future of Jobs Report 2025 do Fórum Econômico Mundial continua sendo a edição mais recente da série e projeta, para 2030, uma distribuição quase equilibrada entre tarefas realizadas por pessoas, por tecnologia e pela colaboração entre ambas.

Essa convivência não beneficiará automaticamente todos os escritórios. Comprar uma ferramenta é muito diferente de redesenhar o trabalho. A produtividade dependerá de processos claros, conhecimento confiável, critérios de revisão e decisões conscientes sobre o que pode ser automatizado.

O Future of Professionals Report 2026 da Thomson Reuters mostra que o mercado jurídico já entrou nessa fase. Entre os clientes corporativos pesquisados, 77% consideram muito importante ou essencial receber melhorias de qualidade viabilizadas por IA, mas apenas 5% afirmam recebê-las da maioria de seus prestadores. Além disso, 71% dos profissionais jurídicos internos esperam que os escritórios mudem seus modelos comerciais conforme o uso da tecnologia aumenta. A pressão não está apenas na produção. Ela alcança preço, relacionamento e percepção de valor.

Serviços previsíveis tendem a se aproximar da lógica de produtos, com jornadas simples, preço transparente e atendimento em escala. As equipes podem ficar menores. A formação dos jovens precisará ser redesenhada. Ao mesmo tempo, confiança, reputação e especialização podem receber um prêmio, porque será cada vez mais difícil distinguir competência de aparência em um ambiente saturado de conteúdo.

No Brasil, a própria OAB reconheceu que a questão deixou de ser eventual. O Plano Nacional de Integração da Inteligência Artificial na Advocacia, lançado em junho de 2026, reúne ações de governança, capacitação, modernização, proteção de prerrogativas e inclusão tecnológica. A entidade também anunciou uma pesquisa nacional em parceria com Stanford, cujos resultados deverão orientar um futuro provimento. Isso significa que ainda não existe um relatório amplo da OAB sobre o impacto da IA no trabalho dos advogados. Existe uma recomendação de boas práticas e, agora, uma política nacional em construção.

O futuro, portanto, não colocará simplesmente advogados contra máquinas. A disputa será entre formas diferentes de exercer a advocacia. Profissionais que usam IA competirão com aqueles que não usam. Modelos de serviço competirão com horas faturáveis. Clareza estratégica competirá com produção indiferenciada.

E a confiança continuará organizando muitas escolhas.

O trabalho começa antes de 2030

Esperar que o futuro se torne evidente é uma forma elegante de chegar atrasado. A adaptação começa quando o profissional observa a própria rotina e reconhece o que depende de repetição, o que exige revisão e o que só produz valor quando há julgamento, relação ou responsabilidade. Esse olhar permite escapar tanto da rejeição movida pelo medo quanto da adoção entusiasmada que confunde velocidade com qualidade.

Para escritórios e departamentos jurídicos, experimentação precisa se transformar em governança. Dados sensíveis devem ser protegidos. As pessoas precisam saber quais ferramentas podem usar, para quais finalidades e de que maneira a revisão humana acontecerá. A eficiência conquistada também precisa chegar ao cliente na forma de previsibilidade, clareza e decisões melhores, não apenas como aumento de margem para quem presta o serviço.

Ainda haverá advogados em 2030. Mas o mercado precisará menos de executores de tarefas previsíveis e mais de intérpretes de contexto. Precisará menos de transmissores de informação e mais de arquitetos de decisões. Precisará de profissionais capazes de reconhecer o que pode ser automatizado e, principalmente, aquilo que nunca deveria ser delegado sem responsabilidade humana.

O momento de proteger o seu espaço não é quando a mudança estiver concluída. É enquanto ainda existe tempo para influenciar a forma que ela terá.


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