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Imagine que você está numa reunião e precisa pedir ajuda no trabalho. O prazo ficou apertado, chegaram duas demandas que ninguém previa e já está claro que não será possível revisar tudo com o cuidado necessário. Antes de abrir a boca, alguém comenta, aliviado, que ainda bem que o assunto ficou nas suas mãos.

Você acaba dizendo que vai resolver. Sai dali com o mesmo problema e uma pergunta a mais. Como admitir que não dá conta depois de receber um elogio desses?

O comentário talvez tenha sido sincero, sem nenhuma intenção de pressionar. Mesmo assim, tornou mais difícil falar. Além de concluir a tarefa chata, agora parece necessário proteger a tranquilidade de quem confia em você. É curioso como uma demonstração de apreço consegue, às vezes, dificultar justamente a franqueza.

Quando a qualidade vira obrigação

Essa expectativa costuma nascer de qualidades reais. Quem resolve problemas difíceis passa a receber os casos complicados. A colega que mantém a calma é chamada para as conversas tensas. O advogado que responde rápido se torna a primeira opção quando surge uma urgência.

É bom ser reconhecido assim. Houve esforço para conquistar esse lugar, e boa parte dele merece ser preservada. O desconforto aparece quando já não há espaço para agir de outro jeito, nem por uma tarde.

Pedir apoio começa a soar como uma contradição. Dizer que ainda não sabe exige uma explicação que jamais seria cobrada de um colega. Até demonstrar irritação fica difícil quando todos se acostumaram a contar com a sua paciência. A impressão é que certas qualidades vieram acompanhadas da obrigação de jamais falhar nelas.

Aos poucos, fazer bem feito passa a incluir o esforço de parecer alguém para quem nada é tão difícil.

Goffman e o palco do escritório

O sociólogo Erving Goffman oferece uma maneira interessante de olhar para isso. Em A representação do eu na vida cotidiana, ele usa o teatro para explicar como nos apresentamos aos outros e procuramos influenciar a impressão que deixamos. A maneira de falar e de se comportar muda conforme o ambiente, as expectativas e quem está por perto.

Isso faz parte da convivência. Ninguém conversa numa audiência exatamente como num jantar entre amigos. Escolhemos as palavras, percebemos a reação de quem escuta e ajustamos a abordagem. Seria cansativo, aliás, conviver com alguém que levasse a sustentação oral para todas as refeições.

Na vida profissional, porém, essa adaptação às vezes cobra demais. A imagem construída continua funcionando para os outros, enquanto mantê-la exige um esforço crescente de quem a sustenta.

Pense numa advogada conhecida pela precisão. Ela já fez as conferências necessárias numa análise simples, mas volta ao documento porque não suporta imaginar um erro justamente no parecer que assinou. Ou num sócio que improvisa uma resposta em vez de admitir que precisa estudar melhor aquela questão.

Nesses exemplos, a preocupação com a própria reputação interfere na qualidade da atuação. Uma revisão concluída se prolonga sem necessidade. Uma orientação que merecia exame cuidadoso é dada depressa para evitar o desconforto de não saber.

O personagem pode ser bastante parecido com você. Tem suas habilidades, conhece o ofício, merece parte da admiração que recebe. O que lhe falta é a permissão para ter um dia ruim, precisar de orientação ou reconhecer que chegou ao limite.

Quando a organização recompensa o disfarce

Seria confortável recomendar que todos abandonassem essa exigência. Acontece que algumas organizações oferecem boas razões para mantê-la.

Uma pesquisa da Universidade de Boston, publicada em 2015 na Organization Science, investigou uma consultoria em que o profissional ideal deveria demonstrar dedicação quase total ao trabalho. Além das entrevistas, foram examinadas avaliações de desempenho e informações internas da empresa.

Alguns consultores preservavam tempo para a família e trabalhavam menos do que as jornadas de oitenta horas valorizadas ali. Faziam esses ajustes discretamente, mantendo a aparência de disponibilidade. Seguiam entregando e recebiam boas avaliações e promoções.

Já quem falava abertamente sobre a necessidade de mudar a rotina enfrentava prejuízos no reconhecimento. Os homens conseguiam esconder essas adaptações com mais frequência que as mulheres.

O estudo retrata uma empresa, mas ajuda a compreender a escolha de ocultar uma necessidade. Naquele contexto, admitir o ajuste tinha um custo que outros conseguiam evitar sem abrir mão dele.

Por isso, o convite à autenticidade merece ser examinado junto com o que acontece depois que alguém o aceita. Um associado depende da avaliação do sócio. Uma gestora recém-promovida está conquistando a confiança da equipe. Ambos têm razões para observar como são tratados os colegas que admitem dificuldades.

Imagine presenciar um pedido de redistribuição de tarefas e, pouco depois, perceber que seu autor deixou de ser chamado para projetos importantes. O escritório nem precisa divulgar uma regra. O recado já circulou.

O julgamento que continua depois da reunião

Essa preocupação acompanha o profissional para fora dali. A reunião termina, o assunto recebe encaminhamento, mas ele passa o caminho de volta lembrando da resposta que demorou a formular. Considera mandar outra mensagem para mostrar que domina o tema. Tenta descobrir se perceberam seu nervosismo.

O caso está encaminhado. Sua atuação, porém, continua em julgamento dentro da própria cabeça.

Durante o descanso, algo parecido acontece. Você decide não responder naquela noite, mas abre a conversa para conferir se estão esperando alguma providência. Prepara uma justificativa para a manhã seguinte. Mesmo com o telefone em silêncio, continua prestando explicações a um interlocutor imaginário.

Esse esforço costuma parecer responsabilidade, preocupação com a carreira, vontade de fazer direito. Só que consome atenção sem necessariamente melhorar a entrega. Às vezes, a providência já foi tomada; o que falta é encerrar a avaliação de como fomos percebidos.

O que o “conseguimos” esconde do planejamento

Há também um efeito sobre a gestão. Suponha que um contrato tenha exigido cancelar um compromisso, mobilizar um colega de outra área e avançar pela madrugada. No encontro seguinte, tudo isso é resumido num “conseguimos”.

Quem escuta conclui que o prazo era adequado. Na próxima proposta, promete algo parecido. A contratação de mais gente é adiada porque os resultados continuam chegando.

Quem executou conhece o custo. Quem planeja pode estar contando com uma capacidade que só existe enquanto alguém abre mão de outras partes da vida. Sem essa informação, o esforço excepcional acaba entrando na conta do que seria uma semana normal.

Existem períodos em que uma dedicação maior faz sentido. Uma negociação avança durante a noite, um fato novo exige atenção. Depois, é preciso rever as condições. Caso contrário, a disposição demonstrada numa emergência se transforma numa medida permanente de quanto cada um aguenta.

Uma explicação objetiva já melhora essa conversa. “Conseguimos concluir porque dois colegas interromperam suas atividades. Aquela análise ficou para amanhã.” O próximo prazo passa a ser discutido com base no que aconteceu, incluindo o que precisou ser adiado.

Como nomear o limite sem expor a vida pessoal

Admitir uma limitação exige responsabilidade. Quem percebe que não conseguirá concluir uma tarefa deve avisar a tempo, explicar o impedimento e ajudar a encontrar uma saída. Essa postura permite que outros se organizem.

Isso dispensa relatos íntimos. Ninguém deveria contar detalhes da própria saúde ou de um problema familiar para discutir demandas assumidas, recursos disponíveis e prioridades. O planejamento pode ser revisto sem que a vida pessoal seja submetida à aprovação da chefia.

Para quem se acostumou a saber tudo, a mudança pode começar com um “preciso conferir esse ponto antes de te orientar”. O cliente entende o próximo passo e recebe uma previsão de retorno. A segurança vem do cuidado com o assunto, sem depender de uma resposta instantânea.

Quem lidera tem bastante influência sobre o resultado dessas tentativas. Receber um alerta com respeito e participar da solução favorece a franqueza. Questionar a competência de quem apresenta uma dificuldade ensina a escondê-la até que já não seja possível.

Cabe olhar também para as exigências que fazemos a nós mesmos. Se um colega competente pedisse ajuda hoje, isso apagaria a qualidade de tudo o que ele já fez? É provável que você entendesse a situação sem grande drama. Quando o pedido é seu, a tolerância costuma diminuir.

Nesse ponto, a cobrança já dispensa supervisão. Mesmo onde existe abertura, permanece o receio de decepcionar. Antes de qualquer reprovação externa, a própria pessoa se encarrega de censurar o que sente.

Uma experiência pequena permite examinar esse receio, respeitando o espaço que há na relação. Consultar alguém sobre uma dúvida, sinalizar um obstáculo antes do atraso ou combinar o retorno para o dia seguinte. Depois, prestar atenção ao que ocorreu. Alguns vínculos comportam mais franqueza do que imaginávamos; outros revelam restrições que precisam ser levadas a sério.

Essa discussão encontra o episódio “Cansaço que não acaba: o desafio de realmente descansar”, do Mentoria Jurídica Estratégica. No podcast, explico por que as pendências seguem ocupando a mente depois do expediente, com pesquisas sobre sono e recuperação. Proponho ainda uma prática de encerramento e examino o que depende de ajustes na carga de trabalho e na liderança.

O episódio aprofunda a parte prática dessa conversa. Para quem fecha o computador e segue tentando provar que merece a confiança recebida, ele oferece um caminho para compreender esse desgaste.

Ao terminar esta leitura, observe o que você esconde para preservar a imagem de quem sempre resolve.

A sua competência não desaparece no dia em que precisa de ajuda.

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