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O seu escritório tem dois organogramas.

O primeiro está em algum arquivo, com caixas, linhas de reporte e nomes de cargo, e é o desenho que aparece na apresentação institucional dizendo quem decide o quê.

O segundo não existe em documento nenhum e descreve o funcionamento real com uma precisão que o primeiro nunca alcança, porque mostra quem precisa ser avisado antes mesmo sem ter responsabilidade formal sobre o assunto, quem recebe a informação antes dos outros, quem consegue reabrir uma decisão encerrada sem apresentar fato novo e em volta de quem todo mundo aprendeu a pisar devagar.

Esse segundo desenho tem um autor, e o autor nunca foi eleito para nada.

Ele é desenhado pelo medo.

Quando a reação vira poder

Influência faz parte da vida de qualquer organização e é saudável que faça.

Profissionais experientes são ouvidos, gente respeitada mobiliza colegas, e uma liderança forte muda o rumo de uma discussão porque trouxe um argumento melhor do que o que estava na mesa.

O problema começa quando a influência para de vir da qualidade da contribuição e passa a vir do custo previsto da contrariedade.

Vale observar como isso aparece na rotina, porque cada episódio isolado parece razoável.

Adia-se uma decisão porque ninguém quer enfrentar a reação daquela pessoa, reescreve-se uma mensagem seis vezes para eliminar qualquer frase que possa ser lida como afronta, incluem-se numa reunião dois participantes que não têm nada a decidir e vão servir de testemunha se a conversa sair do controle, e uma orientação simples percorre uma rota diplomática que levaria cinco minutos se fosse direta.

Repare que, em nenhum desses casos, a pessoa precisou pedir esse tratamento, porque o ambiente aprendeu a antecipá-lo sozinho.

É assim que se forma uma espécie de poder de veto emocional, em que a pessoa não precisa impedir formalmente nada, bastando que todo mundo já saiba quanto trabalho vai custar sustentar aquela decisão depois.

E aqui está o que me parece mais grave nesse arranjo.

Quando uma organização muda o próprio funcionamento para evitar uma reação, ela transfere autoridade sem transferir responsabilidade, de modo que quem provoca a adaptação passa a influenciar agenda, informação e decisão enquanto quem ocupa o cargo formal continua respondendo pelos resultados.

Para quem trabalha com direito o problema é familiar, porque poder exercido sem responsabilidade correspondente é exatamente o descompasso que nenhuma estrutura de governança sustenta por muito tempo.

O que torna tudo mais difícil de enxergar é que a aparência permanece intacta.

A reunião aconteceu, a liderança decidiu e o processo foi seguido, e por baixo dessa formalidade o critério que comandou a escolha foi qual caminho produziria menos turbulência.

O silêncio que parece concordância

Depois de algum tempo as pessoas param de discordar em voz alta, e isso é quase sempre interpretado como maturidade da equipe, alinhamento ou melhora do clima, quando costuma ser aprendizado.

Em 2000, um artigo publicado pela Academy of Management Review consolidou o conceito de silêncio organizacional, que descreve a situação coletiva em que profissionais deixam de compartilhar informações, opiniões e preocupações sobre problemas reais da organização, e mostra que a escolha de se calar ganha força quando falar parece perigoso, inútil ou as duas coisas ao mesmo tempo.

A palavra que carrega esse conceito é coletivo, porque o silêncio se constrói por observação.

Uma pessoa se cala por receio, a seguinte percebe que o alerta dela não foi bem recebido, e a terceira aprende que discordar vai custar três horas de justificativa e uma semana de clima ruim, até que em poucos meses o grupo inteiro já tenha um mapa bastante preciso de quais assuntos podem ser tratados, quais pessoas podem ser contrariadas e qual é o preço de cada franqueza.

A organização continua pedindo transparência nas reuniões gerais enquanto os profissionais continuam selecionando o que é seguro dizer.

Sete anos depois, a mesma associação publicou um estudo de campo com 3.149 profissionais e 223 gestores, investigando o que realmente leva alguém a apresentar uma ideia ou uma preocupação à liderança, e a abertura percebida dos gestores apareceu como o fator mais consistentemente relacionado a essa manifestação, mesmo depois de os pesquisadores controlarem características individuais, satisfação e aspectos demográficos.

A porta pode estar fisicamente aberta, a reunião pode terminar com um pedido sincero de opiniões e o discurso pode celebrar a diversidade de pensamento, e ainda assim as pessoas vão olhar para outro lugar completamente diferente, que é o que aconteceu com a última pessoa que trouxe uma informação desconfortável.

Aquilo é a política real de voz da organização, e ela é escrita por episódio, não por comunicado.

Uma pesquisa da Harvard Business School com 51 equipes já havia mostrado que a segurança psicológica está associada a comportamentos de aprendizagem, como pedir ajuda, discutir erros abertamente e testar novas soluções, e que esse resultado depende menos de um ambiente permanentemente agradável do que da possibilidade de assumir um risco interpessoal sem ser punido por isso depois.

Uma equipe que não consegue dizer “isso vai dar errado” antes da decisão vai dizer “eu avisei” depois do prejuízo, em conversa de corredor, para quem não pode fazer nada.

A organização começa a trabalhar para a reação

O organograma emocional aparece em ajustes pequenos, e é por isso que ele passa despercebido durante tanto tempo.

A área que fecha o negócio consulta alguém que não participa daquele trabalho só para evitar uma objeção tardia, o jurídico coloca cinco pessoas em cópia para impedir que uma versão privada da conversa prevaleça depois, o administrativo guarda mensagens e busca testemunhas para tarefas banais, e a liderança faz uma pré-reunião para preparar a reunião em que, oficialmente, a decisão será tomada.

Cada uma dessas adaptações parece prudência quando vista sozinha, e somadas elas mostram que uma parte considerável do tempo da organização já é usada para administrar o comportamento de uma pessoa.

O efeito que eu considero mais perverso é justamente o que quase ninguém percebe, e ele tem a ver com quem funciona bem.

Os profissionais mais competentes costumam se tornar excelentes nesse jogo, porque leem o humor, antecipam a objeção, escolhem a hora certa, ajustam a linguagem e impedem que a crise chegue a acontecer, e como conseguem manter tudo funcionando eles acabam escondendo o custo do arranjo.

A eficiência de quem compensa protege a ineficiência de quem desorganiza.

Por isso ambientes assim parecem estáveis durante anos, quando na verdade a estabilidade foi comprada com autocensura, trabalho diplomático e decisões adaptadas, e o sistema segue funcionando bem abaixo do que poderia.

Como descobrir quem realmente manda

O organograma verdadeiro aparece menos nos cargos e mais nos desvios.

Acompanhe a próxima decisão relevante da sua organização e observe quem precisou ser avisado antes embora não tivesse responsabilidade formal sobre o assunto, qual caminho tecnicamente adequado foi descartado pela reação que provocaria, e quantas pessoas entraram na conversa apenas para dar proteção política a ela.

Depois observe o que já não chega à mesa, que é a parte mais difícil de enxergar porque ela é feita de ausência.

É o risco que ninguém registrou, a ideia que deixou de ser apresentada, o erro corrigido discretamente antes que determinada pessoa descobrisse, a área que criou um processo paralelo só para reduzir contato e o profissional experiente que continua entregando bem e parou de contribuir com tudo o que enxerga.

Nada disso aparece em relatório, e sim como uma organização sendo surpreendida por um problema que meia dúzia de pessoas já conhecia havia meses.

Corrigir esse desenho passa por devolver cada coisa ao seu lugar, com autoridade acompanhada de responsabilidade e com divergência acontecendo antes da decisão, diante das pessoas certas e com base em fatos.

Depois de decidido, o assunto só volta à mesa com informação nova, mudança de risco ou erro relevante, e reação intensa, articulação lateral e mobilização de aliados não podem funcionar como instância informal de recurso.

A liderança também precisa parar de premiar a capacidade de produzir desgaste, porque toda concessão feita apenas para encerrar a turbulência ensina que a turbulência funciona, e o alívio imediato que parece solução acaba financiando o próximo episódio.

A pergunta que muda o desenho

Se você quiser testar tudo isso esta semana, leve uma pergunta para o fim da sua próxima reunião difícil.

“Qual seria a nossa decisão se ninguém nesta sala estivesse tentando evitar a reação de alguém?”

Ela não elimina contexto, hierarquia nem sensibilidade, e apenas devolve visibilidade ao critério que passou a comandar a conversa sem ser convidado.

A resposta costuma revelar mais sobre a cultura da organização do que muitas pesquisas de clima.

No episódio desta semana do Mentoria Jurídica Estratégica eu observo o mesmo fenômeno pelo outro lado, e em vez de mapear o poder que a reação acumulou eu calculo o preço que a organização paga para sustentá-lo, mostrando os sinais que confirmam que aquilo virou padrão, os números que transformam percepção em gestão, a conversa que a liderança precisa ter, escrita palavra por palavra, e a diferença entre o custo visível de resolver e o custo silencioso de conviver.

O episódio se chama O imposto do caos comportamental nas organizações.

O organograma mostra quem deveria decidir.

O medo revela quem já está decidindo.

E a conta final aparece no trabalho que todos os outros deixaram de fazer.

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