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Você diz que ainda não é hora de mudar de trabalho. Mas já deixou de responder a uma proposta, adiou a ideia de abrir o próprio negócio e evitou uma conversa com quem poderia apresentar outro caminho.

Quando pensa nessas possibilidades, uma pessoa vem à cabeça antes de qualquer avaliação sobre o futuro. Aquela que acreditou em você.

Foi ela quem ofereceu a oportunidade, ensinou o que você não sabia, deu apoio num momento importante. Só de imaginar sua saída, você quase consegue ouvir a pergunta.

“Depois de tudo o que fiz por você?”

Ninguém disse isso. Ainda assim, você fecha a proposta sem terminar de ler.

A conversa nem aconteceu, mas a reação que você imagina já começou a decidir por você.

O que você começou a evitar

Repare no que deixou de contar. A vontade de experimentar outra área, o interesse por um projeto que não cabe naquele escritório. Quando alguém pergunta pelos seus planos, você dá uma resposta vaga. Com a pessoa que tanto contribuiu para seu crescimento, justamente com ela, alguns assuntos ficam difíceis de mencionar.

Você continua reconhecendo o que recebeu. Mas começou a tratar certas escolhas como uma possível ofensa a quem ajudou.

Uma pesquisa da Universidade de Tilburg, publicada na revista Cognition and Emotion em 2018, ajuda a compreender essa mistura. Em três estudos sobre favores, os pesquisadores distinguiram a gratidão da sensação de estar em dívida. A primeira esteve associada à vontade de aproximação com quem ajudou. A segunda, à obrigação de retribuir. Os dois sentimentos podiam surgir diante de um mesmo gesto.

A pesquisa não investigou decisões de carreira. A relação que proponho é uma maneira de olhar para esse impasse profissional, sem presumir que toda conversa adiada tenha a mesma causa.

Preservar um vínculo é uma coisa. Sentir que precisa evitar qualquer decisão que desagrade ao outro é outra. Quando as duas se confundem, até investigar uma oportunidade pode parecer deslealdade.

Você começa a esconder seus planos de alguém cuja opinião valoriza. E essa relação, que poderia comportar uma conversa sobre o futuro, vai ficando restrita ao que não provoca desconforto.

Uma obrigação que ninguém combinou

A cobrança nem sempre é explícita. Em algumas relações, a ajuda passada é lembrada sempre que alguém discorda ou considera sair. Havendo ameaça ou risco de retaliação, isso precisa ser levado a sério, com planejamento e apoio adequado.

Quero olhar, porém, para a situação menos evidente. Ninguém exigiu permanência, mesmo assim, você se comporta como se tivesse prometido ficar.

É como um contrato que você redigiu e assinou sozinho, sem estabelecer quando termina.

Mais um ano de dedicação não parece suficiente. Uma entrega importante também não. Assim que surge outra possibilidade, a obrigação reaparece, e tudo o que você já fez pela relação fica pequeno diante do que recebeu no início.

Imagine uma advogada que começou num escritório precisando de orientação para quase tudo. Uma sócia acompanhava seu trabalho, explicava as decisões e ajudava a corrigir os erros. Hoje, essa profissional atende clientes, forma colegas e assume responsabilidades importantes. Mas, quando pensa em sair, ainda se vê como a iniciante que recebeu uma oportunidade.

A contribuição dela mudou. A maneira como se enxerga naquela relação, muito pouco.

Lembrar da ajuda é justo. Deixar de reconhecer o trabalho que veio depois produz uma avaliação incompleta. Entre a oportunidade inicial e o presente, houve resultados construídos em conjunto. A relação passou a contar também com a experiência e a dedicação de quem foi acolhido.

Isso não pede uma contabilidade de favores. Não há como calcular quantos projetos compensam uma indicação. Aliás, procurar essa medida pode manter o problema. Você continua esperando atingir uma quantidade de dedicação que finalmente permita escolher.

Sêneca examinou a ansiedade de retribuir em Sobre os benefícios. No livro VI, discute o caso extremo de alguém desejar que seu benfeitor enfrente dificuldades para ter a chance de socorrê-lo. Critica essa pressa de se livrar da obrigação e defende que se possa conviver com o que foi recebido, aguardando uma ocasião adequada para retribuir.

Ele não está oferecendo uma regra sobre saídas profissionais. O que essa leitura me permite perguntar é se precisamos mesmo quitar toda ajuda antes de continuar a vida.

O reconhecimento pode permanecer. Por que a permanência no emprego precisaria ser a forma de demonstrá-lo?

Você precisa encontrar um culpado para sair?

Quando a preocupação com a reação alheia ocupa esse espaço, a ordem das perguntas muda. Antes de saber se uma proposta interessa, você imagina como vai explicá-la. Nem chega a conhecer as condições, porque já está tentando resolver o constrangimento.

A pessoa de quem você espera aprovação nem fica sabendo da oportunidade.

Parte dessa dificuldade envolve a imagem que você deseja preservar. Quem recebeu apoio quer continuar sendo alguém leal, confiável, merecedor da aposta. Mudar de caminho parece colocar essa identidade em dúvida, sobretudo quando o outro gostaria que tudo continuasse como está.

Só que os interesses podem ser diferentes sem que uma das partes esteja errada. Sua chefe pode querer que você fique porque confia no seu trabalho. Você pode desejar uma experiência que aquele lugar não oferece. Esperar uma escolha que satisfaça os dois por completo pode prolongar muito o impasse.

Às vezes, a saída encontrada é começar a procurar defeitos no trabalho.

Um comentário desagradável ganha importância. Uma decisão antiga passa a ser lembrada como prova de falta de reconhecimento. Para justificar a partida, você começa a contar aquela história como se quase nada de bom tivesse acontecido ali.

Isso merece atenção. A vontade de mudar já existia, mas parecia precisar de uma injustiça para se tornar aceitável.

Você pode ter sido bem tratado, aprendido muito e querer outra coisa. Uma experiência boa não estabelece, por si só, uma obrigação de continuidade.

Também não é necessário fingir que tudo foi bom. O cuidado é avaliar o que aconteceu sem precisar piorar o passado para defender uma escolha presente. Há mais espaço para decidir quando você consegue reconhecer tanto o valor daquela experiência quanto os seus próprios interesses.

O que você escolheria sem esse receio?

Pense numa possibilidade profissional que vem evitando considerar. Agora imagine, por um instante, que a pessoa a quem se sente em dívida receberia essa notícia com compreensão.

Você teria vontade de investigar a oportunidade?

Se a resposta for sim, isso ainda não significa que deva aceitá-la. Mas é uma pista de que o medo da reação pode estar impedindo uma avaliação que merece acontecer.

Se nem nessa situação a proposta desperta interesse, vale examinar o que mais está pesando. Pode haver dúvidas sobre o trabalho, insegurança financeira ou simplesmente pouca vontade de seguir naquela direção. Uma pergunta não resolve a decisão inteira.

Ela ajuda a separar aspectos que estavam misturados. Você pode descobrir que quer conhecer melhor a oportunidade e, ainda assim, precisa de tempo para se preparar. Pode concluir que prefere ficar, mas deseja rever seu papel. Nenhuma dessas respostas exige diminuir a importância de quem contribuiu para sua trajetória.

Os compromissos concretos continuam existindo. Há entregas a organizar, responsabilidades a transferir e acordos a respeitar. Esses pontos ajudam a definir como agir. São diferentes de uma obrigação de nunca decepcionar alguém.

O reconhecimento também pode ser expresso de maneira direta. Dizer o que aprendeu, dar crédito a quem contribuiu e manter contato, quando houver vontade dos dois. Esses gestos têm valor próprio, sem funcionar como pagamento pelo direito de sair.

Ainda assim, a outra pessoa pode ficar contrariada. Pode apresentar uma crítica pertinente ou precisar de tempo. Ouvir com seriedade faz parte de uma decisão cuidadosa. A concordância dela, porém, não precisa ser condição para que você considere outro caminho.

No episódio “Por que adiamos conversas difíceis no trabalho”, do Mentoria Jurídica Estratégica, trato do passo seguinte. Como preparar essa conversa e continuar quando a resposta vem defensiva, negativa ou vaga.

Antes de escolher as palavras, vale perceber o que você espera daquela conversa. Quer explicar uma decisão, discutir possibilidades ou receber uma autorização sem a qual não se permite avançar?

Quem te ajudou pode discordar do seu próximo passo. Você consegue considerar essa opinião sem tratá-la como uma decisão já tomada?

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