Nas minhas mentorias, encontro com frequência um tipo de advogado que sempre chama a minha atenção.
Ele estuda muito. Não é força de expressão. Acompanha a doutrina estrangeira da área dele, faz cursos, assiste a webinars, guarda o artigo para ler depois e realmente lê. Tecnicamente, é bom de um jeito que impressiona quem trabalha perto.
Então você entra no perfil dele no LinkedIn e encontra apenas uma foto e um cargo.
Quando pergunto por quê, quase nunca ouço uma resposta que pareça insegura. O que vem é uma resposta digna. Ele explica que não gosta do que vê por lá, que aquilo tudo é raso, que não vai transformar quinze anos de estudo num carrossel com fundo colorido, que prefere não publicar a publicar qualquer coisa.
Eu entendo como ele construiu esse argumento. Muita gente olha para essa postura e enxerga exigência intelectual.
Eu vejo uma insegurança que aprendeu a se apresentar como rigor.
Os vícios que vêm com elogio embutido
Existe um nome para a forma profissionalmente respeitável que essa insegurança assume. Quase ninguém o utiliza, porque ele soa agressivo demais para um profissional sério.
Vaidade técnica.
O que a torna tão difícil de enxergar é que ela nunca é chamada pelo nome. Ninguém diz que aquele advogado é vaidoso. As pessoas dizem que ele é rigoroso, que é exigente, que não faz nada superficial.
Ela pertence a uma família de defeitos profissionais que chegam vestidos de virtude e, por isso, quase nunca são confrontados. O membro mais conhecido dessa família é o perfeccionismo. Quem refaz a mesma peça quatro vezes e entrega no limite do prazo é chamado de caprichoso, e não de alguém que está adiando.
São parentes próximos, com uma diferença que importa. O perfeccionismo adia a entrega. A vaidade técnica adia a existência. Um dia o perfeccionista publica, depois da quarta versão. O vaidoso técnico decidiu que não vai publicar nunca e chamou essa decisão de critério.
Ela é a integrante menos comentada da família porque é a mais bem protegida de todas. Há defeitos que o ambiente profissional nomeia sem cerimônia. Quem se atrasa com frequência ganha fama de desorganizado. Quem concentra todas as decisões é identificado como centralizador. A vaidade técnica recebe um tratamento mais generoso: quem desqualifica tudo o que é acessível como raso costuma ser chamado de exigente.
Numa sessão, um mentorado descreveu isso melhor do que qualquer conceito que eu já havia usado. Ele disse:
“É uma produtividade procrastinadora. Porque eu tô fazendo, eu tô estudando, eu tô me atualizando, mas não tô fazendo as coisas que efetivamente vão me fazer avançar.”
Ele estava falando da própria rotina. Poucos minutos depois, na mesma conversa, resumiu tudo numa frase:
“Mais do que medo de me expor, eu tenho medo de avançar.”
Repara que ele mesmo colocou as duas coisas juntas: estudar sem parar e não avançar.
Essa frase abre uma pergunta anterior a qualquer estratégia de posicionamento: o que significa, para essa pessoa, ser bem-sucedida?
Se sucesso, para ela, significa exercer um trabalho tecnicamente excelente, com discrição e sem a ambição de ampliar o próprio mercado, é possível que não haja conflito algum. A exposição pública não precisa ser uma obrigação universal.
Mas, se sucesso inclui escolher projetos melhores, ampliar influência, atrair clientes, ser lembrado para oportunidades importantes e conquistar mais autonomia, as escolhas diárias precisam sustentar essa ambição.
Avançar traz recompensas, mas também aumenta a exposição ao julgamento, às expectativas, ao risco de rejeição e à responsabilidade de sustentar uma nova posição.
Pode ser que algumas pessoas passem anos se preparando porque desejam os resultados do sucesso, mas ainda não decidiram se aceitam a vida que acompanha esses resultados.
O medo de se expor é apenas a parte visível. Por baixo dele, pode existir o medo de se tornar a pessoa que a própria ambição exige.
Muita gente que vive isso evita fazer essa conexão, porque ela é constrangedora.
É por isso que estudar pode funcionar como uma fuga perfeita. Tem aparência de trabalho, produz uma sensação real de progresso e não exige o risco da exposição. A pessoa termina a semana mais preparada, mas não necessariamente mais próxima da carreira que diz desejar.
Além disso, estudar é um adiamento que quase ninguém tem coragem de questionar. Se o advogado diz que ainda não publicou porque precisa se aprofundar mais, quem vai contestar? Dá para passar anos se preparando para um primeiro movimento que nunca acontece.
Raso e acessível são coisas diferentes
Agora vem a parte que eu preciso defender com cuidado, porque ela é o centro de tudo.
Quando o advogado diz que não quer produzir conteúdo raso, muitas vezes está usando “raso” como sinônimo de “acessível”. Esses dois adjetivos descrevem coisas completamente distintas.
Um texto é raso quando não diz nada. Repete o óbvio, enfileira generalidades e o leitor termina exatamente onde começou.
Um texto é acessível quando diz algo verdadeiro e não trivial numa linguagem que o destinatário consegue receber.
Raso é ausência de substância. Acessível é uma habilidade, e é uma habilidade cara.
Aqui vem a inversão que muda o jogo.
Simplificar sem distorcer é uma das provas mais confiáveis de domínio que existem. Só consegue explicar de forma limpa quem entendeu de verdade, porque a compressão exige que você saiba o que é essencial e o que é ornamento.
Quem ainda não organizou o próprio conhecimento costuma precisar da complexidade para se sustentar de pé.
Isso significa que a recusa em ser compreendido, em muitos casos, protege exatamente o contrário do que aparenta proteger.
Eu não estou dizendo que todo especialista que não publica está escondendo insegurança. Estou dizendo que a fronteira entre rigor e refúgio é bem mais fina do que a gente admite e que quase ninguém verifica de que lado está.
A parte que absolve
Ainda existe outra versão dessa história, também muito comum, em que não há vaidade nenhuma.
O caminho é quase sempre o mesmo, e eu o vejo se repetir.
A pessoa é boa tecnicamente. Por ser boa, todo mundo recorre a ela. Por todo mundo recorrer, ela vira a pessoa que faz tudo. Por fazer tudo, não delega, porque parar para ensinar custa mais caro no curto prazo do que resolver sozinha. A agenda inteira acaba consumida por entregas, e não sobra tempo nem espaço mental para pensar em como aparecer.
Esse advogado não se recusa a ser visto. Ele está soterrado.
A diferença prática entre os dois casos é grande, e vale você descobrir em qual deles está. No primeiro, o problema central é uma crença. No segundo, é uma agenda capturada por um modelo de trabalho que depende demais daquela pessoa. Crenças se confrontam. Agenda e modo de operação se reorganizam. Tratar um com o remédio do outro não funciona.
O que os dois compartilham é o resultado.
O preço, que chega em silêncio
O resultado é este: você fica de fora de conversas que nunca vai presenciar.
Alguém precisa de um advogado para um problema que é exatamente o seu. Pergunta a três pessoas. Recebe alguns nomes. O seu não está entre eles.
Você não é avisado, não recebe notificação e nunca fica sabendo.
A oportunidade que não chega não deixa rastro. Por isso, o problema pode durar dez anos parecendo que está tudo bem. Afinal, todos os sinais que você recebe são elogios de quem já conhece o seu trabalho.
Isso sempre aconteceu nas indicações entre pessoas.
Só que uma parte crescente dessas perguntas já está sendo feita a sistemas de inteligência artificial. Sistemas que procuram formular uma resposta a partir dos sinais aos quais conseguem ter acesso.
Nesse processo, nomes associados a rastros públicos claros, consistentes e verificáveis passam a ter uma vantagem que o advogado silencioso talvez nem perceba que perdeu.
Esses sistemas não têm memória afetiva para compensar o seu silêncio.
Foi sobre isso que gravei o episódio desta semana do Mentoria Jurídica Estratégica, chamado O Advogado que a IA Não Recomendou.
Nele, conto uma coisa que começou a acontecer comigo, que me alegrou do ponto de vista pessoal e me inquietou pelo que revela sobre o mercado. Também mostro um dado sobre decisão de compra que pode mudar a maneira como você olha para a sua próxima reunião de proposta.
Se o texto de hoje descreveu você, o episódio explica o tamanho da conta.
Uma coisa eu digo em quase toda sessão e vou repetir aqui: não existe crescimento sem alguma exposição. Alguns dos seus textos vão funcionar muito bem. Outros vão passar em branco. Faz parte.
Alguns textos podem passar em branco. A sua carreira, não.
Quinze anos de estudo não cabem numa foto e num cargo.
Por