Domingo, almoço de família. Entre o arroz e a sobremesa, uma tia pergunta a Caio quando sai a sociedade. Ele responde que está perto, no tom de quem informa a previsão do tempo. Caio tem 39 anos e, há dezessete, persegue a sociedade do escritório onde entrou como estagiário, ainda no quarto ano da faculdade. Sabe de cor quantos associados sêniores estão à frente dele na fila e quais sócios se aposentam até 2029.
No caminho de volta, com o trânsito parado na marginal, a irmã que pegou carona pergunta o que ele pretende fazer no primeiro dia como sócio. Caio demora, olha pela janela e responde com o cronograma: “Sociedade até os quarenta. Era o combinado.” Combinado com quem, ele não sabe dizer.
O acordo foi firmado num corredor da faculdade, por um rapaz de 21 anos que admirava um professor sócio de banca grande e ainda não fazia ideia do que era passar o Natal revisando uma due diligence. Esse rapaz nunca mais foi consultado sobre nada. Mesmo assim, continua assinando todas as decisões dele.
E está longe de ser o único no escritório. Na sala ao lado, uma colega estuda para a magistratura há seis anos, ganha destaque justamente na advocacia que pretendia deixar e sente cada cliente novo como uma pequena traição ao edital. O tributarista do andar de baixo escolheu a área no quarto semestre, encantado com o primeiro estágio, e há quinze anos responde “tributário” quando alguém pergunta do que ele gosta.
O plano continua de pé. A pergunta sobre ele, nem sempre.
O contrato mais rígido que um advogado assina
Advogados passam a vida explicando a clientes que contrato de longa duração precisa prever revisão. Quando as circunstâncias mudam tanto depois da assinatura que cumprir o combinado fica pesado demais para um dos lados, as partes sentam de novo à mesa. Qualquer advogado chama isso de prudência.
O mesmo profissional que defende essa revisão para o cliente trata o plano traçado aos vinte anos como um pacto sem nenhuma hipótese de mudança. O custo subiu a cada ano, as circunstâncias mudaram por completo, e ele segue cumprindo.
Nada disso faz do plano original um erro. Escolher cedo era necessário, e ninguém consegue conhecer todas as possibilidades da profissão antes de dar o primeiro passo. Todo contrato também é assinado de boa-fé, com as informações disponíveis naquele dia, e a vida continua acontecendo depois da assinatura.
Pouca gente percebe que coerência tem custo de manutenção. Sustentar uma escolha antiga exige trabalho diário, que vai de justificar a rotina para os outros até reinterpretar o próprio cansaço como uma fase. Nesse arranjo, o plano continua vigente por uma espécie de cláusula de antiguidade, um fundamento que nenhum advogado aceitaria num parecer.
Quem assinou já não mora aqui
Em 2013, um estudo publicado na revista Science ouviu mais de dezenove mil pessoas entre 18 e 68 anos. Os participantes reconheciam ter mudado bastante na década anterior, em valores e preferências. Ao projetar a década seguinte, previam mudar muito menos. Os pesquisadores batizaram o fenômeno de ilusão do fim da história: em qualquer idade, acreditamos que a pessoa de hoje é a versão definitiva.
Para a carreira, a consequência é concreta. O estudante de vinte anos decidiu pelo profissional de quarenta convencido de que os dois desejariam as mesmas coisas. Errou como erraria qualquer um, e o erro dele virou cronograma.
Uma segunda força trabalha a favor do plano antigo. Décadas de pesquisa sobre decisões profissionais descrevem a escalada de compromisso: quanto mais alguém investiu numa decisão, maior a tendência de investir ainda mais nela, mesmo diante de sinais de que deixou de servir. Na advocacia, esse investimento tem nome e sobrenome. São os anos de associado, a pós-graduação cara, o cursinho pago em doze parcelas, o networking inteiro construído para abrir uma única porta.
Quem estuda há seis anos para um concurso quase nunca se pergunta se ainda quer o cargo. A pergunta que aparece é quanto já custou chegar até ali, e essa conta sempre recomenda continuar.
Só que os anos anteriores, sozinhos, não conseguem decidir os próximos. Eles contam o que você fez até aqui. Para escolher onde colocar a próxima década de esforço, é preciso olhar para quem você se tornou enquanto cumpria o plano.
A plateia do plano
A pesquisa publicada na Science não mede um ingrediente que pesa muito no mercado jurídico: a plateia. O plano da faculdade saiu cedo da gaveta e virou frase de apresentação, do tipo “quero chegar à sociedade” ou “estou estudando para a magistratura”.
Com o tempo, essas frases deixam de descrever uma intenção e passam a descrever uma pessoa. A família apresenta você como o futuro sócio, e um colega indica uma vaga pensando no futuro que você anunciou. Você mesmo organiza as decisões em torno dessa história, até que dizer que mudou de ideia comece a soar como prestação de contas.
Abandonar um plano com tantas testemunhas parece confissão pública de erro. E advogados foram formados num ambiente em que mudar de posição tem nome técnico, contradição, e contradição perde causa.
No processo, a coerência protege a tese. Na carreira, ela costuma proteger apenas a imagem de quem fomos, e essa imagem cobra aluguel todo mês.
O mercado também gosta da sua constância. Cursinhos repetem que só não passa quem desiste, e a frase é verdadeira para quem ainda quer passar. Planos de carreira de escritório funcionam melhor com associados que desejam a sociedade sem perguntar o preço. Ninguém age de má-fé nessa engrenagem, e ela segue premiando trajetórias em linha reta, justamente as mais difíceis de encontrar na vida real.
Por isso o desejo de mudar quase nunca se apresenta com o próprio nome. Ele chega disfarçado de procrastinação seletiva, que atrasa exatamente as tarefas ligadas ao plano, ou de uma inveja difusa dos colegas que trocaram de rota e parecem mais leves. Quando alguém finalmente admite que já não quer aquela rotina, costuma falar em voz baixa, como quem confessa uma fraqueza. Na maioria das vezes, a frase traz apenas informação nova chegando a um plano velho.
Hora de rever o contrato
Revisar um acordo e rasgá-lo são decisões bem diferentes, e todo advogado sabe disso. Muita gente que revisitar o plano da faculdade vai assiná-lo de novo, e quem renova uma escolha com os olhos abertos trabalha de outro jeito, com menos ressentimento e mais método.
O primeiro passo cabe numa tarde. Imagine que esse plano chegasse hoje à sua mesa como proposta nova, com tudo que você já sabe sobre a rotina que ele exige. Se a sua mão hesitaria em assinar, o contrato merece revisão.
O segundo pede uma conversa. Procure alguém que já ocupa a cadeira que você persegue e peça que descreva uma terça-feira comum, hora por hora. O cargo costuma seduzir no título e decepcionar na agenda, e quem está lá dentro conhece essa diferença melhor do que ninguém.
Antes de qualquer movimento, faça também o inventário do que viaja com você. Os anos numa área jurídica não desaparecem quando você passa a atuar em outra, e a preparação para um concurso constrói um repertório que serve a muitas funções. Toda mudança cobra seu preço. Ainda assim, mudar o destino de uma experiência não apaga a experiência.
E olhe com generosidade para quem fez o plano. Aquela pessoa tentou construir um futuro com o que sabia e podia na época. Reconhecer tudo que você aprendeu desde então dispensa declarar que ela errou.
O plano que você fez na faculdade foi um excelente documento para a época em que foi escrito. O problema começa quando ele passa a valer como lei para uma pessoa que o redator nunca conheceu.
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No episódio 10 anos de formado e a sensação de estar atrasado, do Mentoria Jurídica Estratégica, falo do desconforto de medir a própria trajetória pela régua dos colegas. Este texto olha para outra régua, aquela que você mesmo traçou aos vinte anos.
O fato novo que justifica rever o seu plano de carreira é você.
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