No dia seguinte à colação de grau, eu achava que a minha vida estaria resolvida. Emprego encaminhado, direção definida, talvez algum dinheiro entrando. Tinha aí uma certa inocência, a de quem estava entrando na vida adulta e imaginava que isso viesse pronto.
O diploma chegou. A resposta sobre o que fazer com ele, não.
Se você acabou de se formar em Direito, pode estar pensando em advogar, prestar concurso, procurar uma vaga em empresa ou continuar trabalhando no lugar onde estagiou. Pode também não ter escolhido nenhum desses caminhos. Antes de se matricular numa pós-graduação ou começar a estudar para a OAB porque todos à sua volta estão fazendo isso, vale descobrir que trabalho você quer conhecer mais de perto.
Você não precisa definir a carreira inteira agora. Precisa entender o que cada escolha exige e qual próximo passo cabe na sua realidade.
Preciso tirar a OAB depois de me formar?
Se você quer exercer a advocacia, sim. A aprovação no Exame de Ordem é um dos requisitos para a inscrição na OAB, e a inscrição é necessária para advogar. Concluir a faculdade, por si só, não autoriza você a atender clientes ou assinar petições como advogado. Essas regras estão no Estatuto da Advocacia.
Mas concluir Direito não obriga ninguém a seguir a advocacia. Há funções que aproveitam a formação jurídica sem exigir inscrição na OAB. Outras exigem. O fato de uma vaga ter “jurídico” no nome não resolve essa dúvida.
Nos concursos, a distinção merece ainda mais cuidado. Algumas carreiras exigem tempo de atividade jurídica após a graduação. Isso não significa, automaticamente, que o candidato precise ter advogado durante todo esse período. Para a magistratura, por exemplo, a regulamentação do CNJ admite outras atividades que envolvam o uso predominante de conhecimento jurídico, conforme os critérios de comprovação previstos para cada concurso.
Em outros cargos, a OAB também aparece entre os requisitos, às vezes somada a um tempo mínimo de atividade jurídica. Isso aparece em editais de procuradoria, e não vale como regra para todos eles.
Se você tem um cargo em vista, leia o edital e a norma que rege aquela carreira. Confira se a OAB é exigida, se há tempo mínimo de atividade jurídica, quais experiências podem ser usadas para comprová-lo e em que momento a comprovação será cobrada. Essas respostas podem mudar suas escolhas de trabalho nos primeiros anos depois da faculdade.
Como escolher entre advocacia, empresa e concurso
Quem está começando costuma procurar o caminho certo. Eu começaria investigando o trabalho que existe por trás de cada nome.
Na advocacia, a rotina pode envolver clientes, elaboração de peças, negociação, audiências, pesquisa e decisões sobre casos concretos. Isso muda bastante conforme a área e o lugar onde você trabalha. Um bom estágio não garante que você gostará de advogar, assim como uma experiência ruim num escritório não prova que a profissão não é para você.
O ambiente em que você começa também importa. Descubra quem vai revisar seu trabalho, se você poderá acompanhar um caso além da tarefa que recebeu e como são discutidos os erros. Quando uma peça volta corrigida, alguém explica as alterações? Você chega a saber o resultado da estratégia que ajudou a executar?
Essas perguntas revelam mais sobre o aprendizado oferecido por uma vaga do que uma promessa genérica de crescimento.
A tecnologia tornou essa conversa ainda mais necessária. Em alguns ambientes, pesquisas e primeiras versões de documentos são produzidas mais depressa com o auxílio de inteligência artificial. Ganhar tempo pode ser ótimo, desde que o profissional iniciante continue participando do raciocínio jurídico, da revisão e das decisões. Escrevi sobre isso em O primeiro degrau da advocacia encolheu com a IA.
Em uma empresa, você pode se aproximar das decisões do negócio, acompanhar contratos, riscos, negociações e processos internos. Algumas funções exigem conhecimento jurídico especializado. Outras se concentram mais em coordenação ou operação. Leia as atribuições da vaga e, se puder, converse com alguém da equipe para entender o que ocupará seus dias.
O concurso oferece outra forma de organizar a carreira. Antes de escolher um cargo pela estabilidade ou pela remuneração, procure saber o que você faria depois da aprovação. Também vale calcular o tempo de preparação, o custo dos estudos e como vai se manter nesse período. Algumas pessoas conciliam estudo e trabalho. Para outras, essa combinação não é viável. Essa diferença precisa entrar no planejamento, não no julgamento da capacidade de cada um.
Conversar com profissionais, observar a rotina de uma área e ler editais ou descrições de vagas ajuda a trocar uma imagem idealizada por informações que você pode usar para decidir.
Quanto ganha quem está começando no Direito?
Não há um salário médio que represente, ao mesmo tempo, quem começa num escritório, assume uma função em empresa, atua por conta própria ou ingressa numa carreira pública.
Se o seu interesse é a advocacia em escritórios, o Guia Salarial 2026 da Robert Half oferece referências mais específicas do que uma média geral da profissão. Para advogado júnior em contencioso trabalhista num escritório de pequeno porte, por exemplo, o guia apresenta R$ 4.300 no 25º percentil, R$ 5.400 no 50º e R$ 6.450 no 75º. Os valores variam conforme a cidade, a experiência, o porte do escritório e a demanda pelo cargo.
Isso não quer dizer que todo recém-formado receba um desses valores. “Advogado júnior” designa uma posição, não exatamente alguém que acabou de pegar o diploma. Os números também não descrevem a renda de quem trabalha por conta própria nem servem para estimar a remuneração de um concurso.
Na avaliação de uma proposta, pergunte qual será o vínculo, a jornada, os benefícios, as despesas que ficarão por sua conta e como funciona a distribuição do trabalho. Uma vaga pode ensinar muito e ainda assim pagar menos do que você precisa para se manter. Levar essa necessidade a sério faz parte de uma decisão responsável.
E se eu não tiver clientes nem contatos?
Essa preocupação costuma aparecer cedo, às vezes antes mesmo de a pessoa decidir se quer advogar. No levantamento divulgado pela OAB em 2026, a falta de clientes foi uma das dificuldades mais citadas pelos participantes com até cinco anos de inscrição. A insegurança técnica e a falta de orientação de colegas mais experientes também apareceram nas respostas.
Começar sem uma rede familiar no Direito pode tornar o caminho mais trabalhoso. Não adianta fingir que todos saem do mesmo lugar. Também não é preciso transformar cada encontro numa tentativa de conseguir uma indicação.
Colegas da faculdade, professores e profissionais com quem você trabalhou no estágio podem ajudar a conhecer oportunidades que não aparecem numa busca por vagas. Uma conversa útil pode ser sobre a rotina de determinada área, as competências exigidas e os lugares onde é possível encontrar trabalho supervisionado.
Se você decidir advogar, também precisará aprender a tornar sua atuação compreensível para quem pode precisar dela. Escolher um assunto para estudar, produzir informação útil e construir relações profissionais são partes desse processo, sempre com atenção às regras da profissão. Desenvolvi esse tema no artigo sobre captação de clientes na advocacia.
O que fazer nas próximas semanas
Se você saiu da faculdade sem uma direção definida, escolha duas possibilidades que despertam seu interesse e investigue como elas funcionam.
Leia vagas e editais. Converse com pessoas que exercem aquelas funções. Procure entender o que elas fazem numa semana comum, e não apenas o que consta na descrição do cargo. Anote o que você gostaria de aprender, de que renda precisa e quais exigências ainda terá de cumprir.
Seu próximo passo pode ser preparar a OAB porque a advocacia entrou no seu plano. Pode ser buscar um trabalho jurídico enquanto estuda para um concurso. Pode ser procurar uma equipe em que consiga aprender antes de atender por conta própria. A resposta depende do caminho escolhido e das condições que você tem hoje.
Eu teria gostado de entender isso quando saí da faculdade. A colação marca o fim de um percurso que vinha organizado em semestres, provas e prazos. Depois dela, ninguém entrega a mesma estrutura para a vida profissional.
Você vai precisar construí-la. Não com uma decisão perfeita sobre os próximos vinte anos, mas reunindo informação suficiente para escolher o próximo passo e perceber, com o tempo, se ele continua fazendo sentido.
Se a advocacia faz parte dos seus planos e você precisa de ajuda para organizar essas decisões, conheça meu trabalho de mentoria para advogados. A conversa começa pela sua situação concreta, inclusive pelas condições que tornam algumas escolhas possíveis agora e outras não.
Por
Respostas de 3