O profissional do futuro tem uma vantagem comercial. Ele nunca fica pronto.
Quando você se aproxima do modelo anunciado, a descrição muda. Surge uma nova ferramenta, uma competência indispensável, uma certificação que passou a diferenciar os melhores. O futuro avança alguns metros e volta a cobrar ingresso.
Na advocacia, esse personagem já precisou ser gestor, vendedor, negociador, produtor de conteúdo, especialista em proteção de dados, conhecedor de legal operations, adepto do visual law, analista de dados e, agora, usuário avançado de inteligência artificial.
Cada uma dessas competências pode ter valor. O problema aparece quando elas são reunidas na descrição de um único profissional, como se todas fossem igualmente urgentes para qualquer pessoa.
O advogado do futuro sabe tudo o que você ainda não aprendeu.
É uma figura bastante conveniente para quem vende a travessia.
Uma previsão virou cobrança individual
O mercado de trabalho está mudando. Negar isso seria tão ingênuo quanto acreditar em todas as previsões feitas sobre ele.
O Future of Jobs Report 2025, publicado pelo Fórum Econômico Mundial a partir da visão de mais de mil empregadores, estimou que 39% das competências centrais dos trabalhadores devem mudar até 2030.
O número é relevante. Também é muito fácil de usar mal.
Trinta e nove por cento das competências não significa que 39% daquilo que cada profissional sabe perderá valor da mesma maneira. O próprio relatório mostra diferenças entre setores, funções, países e atividades.
Uma estimativa global descreve uma transformação coletiva. Quando chega às redes sociais, costuma se converter numa ameaça particular.
“Quase metade do que você sabe ficará ultrapassada.”
A frase assusta mais do que explica. Não informa quais capacidades estão mudando no seu trabalho, em que velocidade isso acontece, nem quais continuam valiosas. Apenas estabelece um relógio.
O dado deixa de orientar e começa a pressionar.
A partir daí, qualquer produto que prometa preparação ganha uma vantagem. A pessoa já não compra somente conhecimento, mas também a sensação de que reagiu a tempo.
A advocacia adora anunciar a morte do advogado anterior
Há alguns anos, disseram que o profissional exclusivamente técnico perderia espaço para quem entendesse de negócios.
A observação fazia sentido. Muitos clientes esperavam uma compreensão mais ampla de suas decisões e não apenas uma resposta jurídica isolada.
A ideia, porém, foi ganhando extensões.
O advogado deveria compreender negócios, vender, comunicar, liderar, construir marca, produzir conteúdo e dominar tecnologia. Depois, deveria fazer tudo isso com rapidez, autenticidade, visão estratégica e presença digital.
Repare como uma recomendação razoável pode se tornar uma descrição impossível.
O mercado jurídico não abandonou a valorização do conhecimento técnico. Ele apenas acrescentou novas exigências sem retirar as antigas. Espera profundidade e velocidade, especialização e repertório amplo, prudência e exposição, disponibilidade e equilíbrio.
Quando todas as competências são apresentadas como básicas, ninguém consegue se considerar preparado.
Essa insuficiência permanente tem consequências comerciais. Para cada habilidade que parece faltar, surge um curso pronto a ensiná-la. Especialistas anunciam que o método anterior perdeu eficácia, enquanto novas categorias profissionais prometem distinguir quem compreendeu o futuro de quem ainda trabalha segundo a lógica do passado.
Algumas dessas propostas são excelentes. Outras apenas reorganizam ideias conhecidas com um vocabulário mais vendável.
O problema não está na existência da oferta. Está na fabricação contínua da inadequação que a antecede.
A competência indispensável do ano
Todo mercado de formação precisa responder a uma pergunta difícil.
Por que alguém deveria dedicar tempo e dinheiro a este conhecimento agora?
A resposta mais honesta dependeria do trabalho, do momento da carreira e do objetivo de cada pessoa. Só que essa resposta reduz o público.
A urgência amplia.
Por isso, uma competência útil muitas vezes é apresentada como universal. Um recurso complementar vira requisito de sobrevivência. Uma tendência em determinados segmentos passa a representar o destino de toda a profissão.
A linguagem ajuda a acelerar esse movimento.
Quem aprende está “se preparando para o futuro”. Quem hesita está “resistindo à mudança”. Quem pede evidências “ainda não entendeu a transformação”. Quem prefere observar um pouco mais corre o risco de parecer acomodado.
Desse modo, uma decisão sobre formação deixa de ser avaliada pelo mérito e passa a funcionar como teste de identidade.
Você é o tipo de profissional que evolui ou o tipo que ficou parado?
Diante dessa alternativa, comprar parece menos arriscado do que questionar.
O curioso é que muitas promessas de diferenciação chegam ao mesmo tempo para milhares de pessoas. O curso vendido como vantagem exclusiva se torna rapidamente mais uma certificação parecida nos currículos.
Então a régua muda outra vez.
O diferencial tem prazo curto porque a sensação de atraso precisa ser renovada.
A empresa anuncia a transformação. O profissional paga a preparação
Nesse processo, a responsabilidade pela atualização acaba sendo transferida para o próprio profissional sem muita discussão.
Organizações afirmam que suas equipes precisam inovar, incorporar inteligência artificial e trabalhar de maneira mais estratégica. Fazem apresentações sobre o futuro e divulgam compromissos com a transformação.
Depois, devolvem ao profissional a tarefa de descobrir o que isso significa.
Quais atividades serão modificadas? Que competências terão valor? Quanto tempo de trabalho será reservado ao aprendizado? Quem acompanhará os primeiros testes? Como o desempenho será avaliado durante a transição?
Muitas vezes, não há resposta.
A empresa declara a mudança. O profissional compra o curso, estuda à noite e assume sozinho o risco de ter interpretado a tendência corretamente.
Se der certo, demonstrou iniciativa. Se escolher a formação errada, faltou visão.
Se não conseguir estudar depois de uma jornada cheia, precisa organizar melhor o tempo.
É uma distribuição bastante confortável. A organização conserva o discurso de modernização sem assumir integralmente o custo de preparar as pessoas para ela.
Enquanto isso, o indivíduo trata como deficiência pessoal uma incerteza que foi produzida coletivamente.
Uma estratégia séria de atualização profissional deveria começar dentro do trabalho. A empresa que sabe para onde está indo consegue explicar quais capacidades precisará, oferecer experiências em que elas possam ser desenvolvidas e aceitar que aprender ocupa tempo.
Quando isso não acontece, o mercado externo oferece respostas. Nem sempre para as perguntas certas.
O novo currículo nunca envelhece sozinho
O sociólogo Hartmut Rosa, no livro Aceleração, examina uma contradição do mundo contemporâneo. A tecnologia torna inúmeros processos mais rápidos, mas a sensação de falta de tempo permanece.
Uma das ideias centrais de sua análise é a de estabilização dinâmica. A sociedade precisa continuar crescendo, inovando e acelerando apenas para conservar sua estrutura.
É difícil não reconhecer essa lógica na carreira.
Antes, uma formação ampliava o repertório de alguém. Agora, parte dela serve para impedir que o currículo pareça antigo.
O movimento pode ser real e necessário. O que merece atenção é a mudança de finalidade.
O profissional já não estuda somente para alcançar uma posição. Estuda para não perder a que conquistou. Não aprende apenas por curiosidade ou ambição. Aprende para evitar o rótulo de ultrapassado.
Esse medo cria um consumidor particularmente fiel.
Ele não precisa terminar satisfeito. Basta terminar convencido de que uma nova lacuna apareceu.
A formação deixa de ter conclusão. Vira assinatura.
O rótulo de obsoleto merece defesa
Antes de aceitar que determinada competência se tornou indispensável, seria razoável exigir precisão de quem faz essa afirmação.
Indispensável para qual atividade? Em que tipo de organização? Para profissionais em qual etapa da carreira? Com que evidência de impacto? E, principalmente, indispensável para produzir qual resultado?
Essas perguntas não revelam resistência. Revelam critério.
Uma habilidade em crescimento não se torna automaticamente prioritária para você. O mercado pode valorizar determinado conhecimento sem que ele seja a necessidade central do seu trabalho neste momento.
Também existe diferença entre conhecer uma ferramenta, operá-la e tomar boas decisões com ela.
Uma pessoa pode aprender rapidamente a usar um recurso tecnológico e continuar sem repertório para avaliar o resultado. Outra pode ter uma experiência valiosa e precisar de apoio para incorporá-la a um novo processo.
Quando o debate se limita a quem “já usa” e quem “ainda não usa”, essas distinções desaparecem. A adoção vira medalha. A prudência vira atraso.
Na advocacia, isso é especialmente perigoso. Novidade não dispensa responsabilidade. Velocidade não corrige julgamento ruim. A ferramenta pode alterar a execução de uma tarefa sem assumir as consequências profissionais de uma decisão.
O futuro da profissão dificilmente será definido apenas por quem chegou primeiro a uma plataforma.
O que está sendo vendido junto com o conhecimento
Todo curso oferece um conteúdo visível. Alguns oferecem, junto, uma narrativa sobre quem você se tornará depois dele.
Mais atualizado. Mais competitivo. Mais preparado. Menos substituível.
Essa promessa adicional merece ser examinada porque nenhum certificado consegue garantir todas essas coisas.
O conhecimento pode aumentar sua capacidade. Sua relevância dependerá também do contexto em que ele será usado, da qualidade das suas decisões, das relações que construiu e dos problemas que sabe resolver.
Quando essa complexidade é retirada da propaganda, sobra uma equação sedutora.
Você se sente atrasado. Compra uma formação. Recupera sua posição.
Depois, descobre que posição profissional não se recupera por matrícula.
O mercado de educação não precisa parar de vender. O profissional também não precisa desconfiar de toda oferta. O que precisa terminar é a autorização automática para que qualquer tendência declare uma carreira inteira insuficiente.
Nem toda mudança anuncia a sua obsolescência.
Às vezes, ela apenas pede que você compreenda melhor o que está acontecendo antes de comprar a resposta.
No novo episódio do podcast Mentoria Jurídica Estratégica, eu sigo por outro caminho. A conversa trata do que acontece dentro de nós quando a sensação de atraso começa a orientar decisões, mesmo quando continuamos trabalhando e aprendendo.
O episódio se chama Como lidar com a ansiedade de ficar para trás na carreira.
Aqui, quis examinar quem ajuda a fabricar o relógio.
Lá, converso sobre o que fazer quando você já começou a correr por causa dele.
Leia também: Por que a competência técnica não vai salvar sua carreira (e o que vai)?.
Leia também: A IA está fechando a escola invisível da advocacia.
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